Vacina da UFMG contra a malária mais comum do Brasil recebe aval para testes em pessoas
O protocolo prevê três aplicações com intervalo de 28 dias e acompanhamento de 360 dias no Hospital das Clínicas, em Belo Horizonte.

A Anvisa autorizou os primeiros testes em pessoas da Vivaxin, vacina da UFMG contra a malária vivax, com 48 voluntários saudáveis. O Plasmodium vivax causa a forma da doença mais comum no Brasil. Os testes serão feitos no Hospital das Clínicas da universidade, em Belo Horizonte.
A decisão está na Resolução-RE nº 3.956, de 6 de outubro, publicada no Diário Oficial da União na quarta-feira (7). O aval foi anunciado neste sábado (10) pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em visita ao CTVacinas, o centro de tecnologia em vacinas da UFMG instalado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC).
Contra o vivax ainda não existe vacina em uso no mundo, segundo a UFMG. As duas vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, a RTS,S/AS01 e a R21/Matrix-M, foram feitas para outra espécie, o Plasmodium falciparum, que predomina na África.
“Ela tem um impacto socioeconômico importante, porque a pessoa doente não pode trabalhar”, disse o professor Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas, em nota da universidade. A Vivaxin foi desenvolvida com a USP, onde o antígeno foi descoberto e testado, e com o laboratório farmacêutico brasileiro Cristália.
Nesta primeira fase, os pesquisadores vão medir a segurança, as reações à aplicação e a capacidade da vacina de estimular a defesa do organismo. Serão testadas três dosagens, e parte dos participantes receberá placebo, uma substância sem efeito. Cada pessoa recebe três aplicações, com intervalo de 28 dias, e é acompanhada por 360 dias.
Podem participar adultos saudáveis de 18 a 59 anos que nunca tiveram malária. As notas da UFMG ainda não informam como será o recrutamento nem a data da primeira aplicação. A proteção contra a doença só poderá ser medida nas fases seguintes do estudo.
“A Anvisa está à disposição para apoiar esses projetos e fazer com que essa inovação chegue à nossa população”, afirmou a diretora da agência, Daniela Marreco Cerqueira, no anúncio deste sábado em Belo Horizonte. O mesmo centro já concluiu as fases 1 e 2 da SpiN-TEC, sua vacina contra a covid-19, que se prepara para a fase 3.
O Brasil registrou 118.037 casos de malária contraídos no próprio território em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Mais de 99% deles se concentram na região amazônica, formada por Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Nos demais estados as notificações são poucas, mas a letalidade é maior, informa o ministério.
O vivax tem uma particularidade que complica o controle. Formas do parasita podem ficar adormecidas no fígado e provocar nova crise mesmo sem outra picada, segundo a UFMG.
O país tem um Plano Nacional de Eliminação da Malária, com a meta de interromper a transmissão local até 2035. “Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e, com isso, também contribuir com a eliminação da malária na América Latina”, disse Gazzinelli.
Enquanto não há vacina, a proteção vem do mosquiteiro, do repelente, de roupas que cobrem braços e pernas e de telas nas janelas, orienta o Ministério da Saúde. O transmissor é o Anopheles, também chamado de carapanã ou mosquito-prego, mais abundante ao entardecer e ao amanhecer, mas que pica durante toda a noite.
Quem passa o feriadão de Nossa Senhora Aparecida (12) em roteiros de selva perto de Manaus ou no interior do Pará deve ficar atento na volta. Os sintomas do vivax aparecem de 10 a 30 dias depois da picada: febre alta, calafrios, tremores, suor e dor de cabeça.
O diagnóstico só é feito por exame de sangue, e os comprimidos do tratamento são fornecidos de graça nas unidades do SUS, segundo o ministério.
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