Símbolos nacionaisExplicador

A letra do Hino Nacional, oficial desde 1922, explicada verso a verso

A música de Francisco Manuel da Silva esperou 91 anos pelo poema de Osório Duque-Estrada, adotado por decreto na véspera do centenário da Independência.

Monumento à Independência e Bandeira do Brasil no Parque da Independência, em São Paulo
Monumento à Independência e o riacho do Ipiranga, em São Paulo, cenário do primeiro verso do Hino Nacional, em imagem de 2015.Foto: Nicola Rago Jr / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

A letra do Hino Nacional é oficial desde 6 de setembro de 1922, quando o presidente Epitácio Pessoa assinou o Decreto 15.671. O poema de Joaquim Osório Duque-Estrada tem 50 versos, em duas partes do mesmo tamanho, no texto publicado pela Presidência da República.

É o texto que os alunos do ensino fundamental ouvem toda semana na escola e que abre os jogos da Seleção. Muita gente canta de cor sem saber o que é “lábaro” ou “penhor”. Aqui estão a letra inteira, a tradução dos trechos difíceis e as regras para a execução.

A música é bem mais antiga do que os versos. A melodia de Francisco Manuel da Silva teve a primeira execução oficial em 13 de abril de 1831, segundo o Senado. Dois meses depois da Proclamação da República, o Decreto 171, de 20 de janeiro de 1890, manteve a composição como Hino Nacional.

Faltava a letra. Duque-Estrada escreveu o poema em 1909, e o texto só foi adotado na véspera do centenário da Independência. Entre a primeira execução da música e os versos oficiais passaram-se 91 anos.

A letra oficial, em duas partes

O texto abaixo é o publicado pela Presidência da República, na grafia atual. Cada parte tem 25 versos e termina no mesmo refrão. As barras marcam a quebra dos versos.

Parte I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante, / E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, / Brilhou no céu da pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte, / Em teu seio, ó liberdade, / Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada, / Idolatrada, / Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido / De amor e de esperança à terra desce, / Se em teu formoso céu, risonho e límpido, / A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza, / És belo, és forte, impávido colosso, / E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada, / Entre outras mil, / És tu, Brasil, / Ó Pátria amada! / Dos filhos deste solo és mãe gentil, / Pátria amada, / Brasil!

Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido, / Ao som do mar e à luz do céu profundo, / Fulguras, ó Brasil, florão da América, / Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra, mais garrida, / Teus risonhos, lindos campos têm mais flores; / “Nossos bosques têm mais vida”, / “Nossa vida” no teu seio “mais amores.”

Ó Pátria amada, / Idolatrada, / Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo / O lábaro que ostentas estrelado, / E diga o verde-louro dessa flâmula / — “Paz no futuro e glória no passado.”

Mas, se ergues da justiça a clava forte, / Verás que um filho teu não foge à luta, / Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada, / Entre outras mil, / És tu, Brasil, / Ó Pátria amada! / Dos filhos deste solo és mãe gentil, / Pátria amada, / Brasil!

Verso a verso, em português de hoje

A dificuldade do hino vem menos das palavras raras e mais da ordem das frases. O poeta inverte quase tudo. O primeiro verso, na ordem direta, seria: as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Por isso “as margens” não leva crase. São elas o sujeito da frase, as que ouvem o grito da Independência, e não o lugar onde alguém o ouviu. No decreto de 1922, a grafia ainda era “Ypiranga” e “Hymno”.

TrechoO que quer dizer
as margens plácidasAs margens calmas do riacho do Ipiranga, em São Paulo, cenário do 7 de setembro de 1822.
brado retumbanteGrito forte, que ecoa. É o grito da Independência.
raios fúlgidosRaios brilhantes. A liberdade aparece como um sol sobre o país.
o penhor dessa igualdadePenhor é garantia. O verso fala da garantia de igualdade conquistada com luta, “com braço forte”.
desafia o nosso peito a própria morteNa ordem direta, o nosso peito desafia a própria morte. Quem é livre não teme morrer pela liberdade.
idolatradaAdorada, amada acima de tudo.
um raio vívidoUm raio cheio de vida, intenso, de amor e de esperança.
a imagem do Cruzeiro resplandeceBrilha no céu o Cruzeiro do Sul, a constelação que também está na Bandeira.
impávido colossoGigante que não tem medo. Impávido é destemido; colosso é coisa enorme.
o teu futuro espelha essa grandezaO futuro do país reflete o tamanho dele.
berço esplêndidoBerço magnífico: a terra entre o mar e o céu, onde o país repousa.
fulguras, florão da AméricaFulgurar é brilhar. Florão é um enfeite em forma de flor: o Brasil seria a joia do continente.
do que a terra, mais garridaGarrida é enfeitada, vistosa. Os campos daqui têm mais flores do que a terra mais vistosa.
“Nossos bosques têm mais vida”Versos da “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Por isso vêm entre aspas.
o lábaro que ostentas estreladoA bandeira com estrelas que o país exibe. Lábaro é bandeira; ostentar é mostrar.
o verde-louro dessa flâmulaO verde e o amarelo da bandeira. Louro é dourado; flâmula é outro nome para bandeira.
se ergues da justiça a clava forteClava é um bastão pesado, usado como arma. Se o país precisar lutar por justiça, os filhos não fogem.

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As duas partes contam histórias diferentes. A primeira narra a Independência e a liberdade conquistada. A segunda descreve a natureza, promete paz e termina com a disposição de defender o país.

De pé, em silêncio e até o fim

A Lei 5.700, de 1º de setembro de 1971, diz como o hino é tocado e como o público deve se portar. As regras valem para a escola, o estádio, a formatura e os desfiles dos feriados nacionais.

  • PosturaTodos de pé e em silêncio. Homens civis tiram chapéu ou boné, e militares fazem continência (artigo 30).
  • DuraçãoO hino é tocado ou cantado inteiro, sem repetição, regra em vigor desde a Lei 13.413, de 2016 (artigo 24).
  • CantoSempre em uníssono, com todas as vozes na mesma melodia (artigo 24).
  • EscolasExecução obrigatória uma vez por semana no ensino fundamental, público e privado, desde a Lei 12.031, de 2009 (artigo 39).
  • EsporteAbertura das competições das entidades do Sistema Nacional do Desporto (artigo 25).
  • Hino estrangeiroQuando há outro país na cerimônia, o hino dele toca antes, por cortesia (artigo 25).
  • ArranjosO único arranjo vocal permitido é o de Alberto Nepomuceno (artigo 34).

Para quem tem filho na escola, a lei vai além da execução semanal. O artigo 39 manda ensinar o canto e a interpretação da letra, e o artigo 14 prevê hastear a Bandeira ao menos uma vez por semana durante o ano letivo. Vale perguntar à escola em que dia isso acontece.

Um artigo pouco lembrado continua no texto da lei: o 40 diz que ninguém pode ser admitido no serviço público sem demonstrar que conhece o Hino Nacional. O descumprimento das regras é contravenção, punida com multa, pelo artigo 35.

Da primeira execução à regra dos estádios
  • 13 de abril de 1831A música de Francisco Manuel da Silva tem a primeira execução oficial, segundo o Senado.
  • 20 de janeiro de 1890O Decreto 171 mantém a melodia como Hino Nacional.
  • 1909Joaquim Osório Duque-Estrada escreve o poema.
  • 6 de setembro de 1922O Decreto 15.671 torna oficial a letra.
  • 1º de setembro de 1971A Lei 5.700 fixa as regras dos símbolos nacionais.
  • 21 de setembro de 2009A Lei 12.031 torna obrigatória a execução semanal nas escolas de ensino fundamental.
  • 29 de dezembro de 2016A Lei 13.413 leva o hino à abertura das competições esportivas.

O próximo 7 de setembro, quando a música acompanha os desfiles cívicos, cai numa terça-feira em 2027.

Como citar: Ouviram (8 out. 2026). «A letra do Hino Nacional, oficial desde 1922, explicada verso a verso». ouviram.com.br/cultura/hino-nacional-brasileiro-letra-e-significado

Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.

Perguntas frequentes

Pode aplaudir depois do Hino Nacional?

A Lei 5.700 pede que todos fiquem de pé e em silêncio durante a execução e veda outras formas de saudação nesse momento. O texto da lei não trata do aplauso depois que a música termina.

Precisa colocar a mão no peito para cantar o hino?

Não. A Lei 5.700 pede atitude de respeito, de pé e em silêncio. Homens civis tiram chapéu ou boné, e militares fazem continência conforme o regulamento de cada corporação.

Qual é o Dia do Hino Nacional?

É 13 de abril. A data lembra a primeira execução oficial da música de Francisco Manuel da Silva, em 13 de abril de 1831, segundo o Senado.

O Hino Nacional tem direitos autorais?

Não. A obra está em domínio público. Pela Lei 9.610, de 1998, os direitos patrimoniais duram 70 anos depois da morte do autor, e Duque-Estrada morreu em 1927.

Qual a diferença entre o Hino Nacional e o Hino da Independência?

São duas obras. O Hino da Independência tem música de Dom Pedro I e letra de Evaristo da Veiga e começa com “Já podeis, da Pátria filhos”. O Hino Nacional começa com “Ouviram do Ipiranga”.

#HinoNacional#OsórioDuqueEstrada#Lei5700#SímbolosNacionais

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