40 gírias brasileiras por região, do “égua” do Pará ao “bah” gaúcho
O país tem 203 milhões de habitantes em 27 unidades da federação, segundo o Censo 2022 do IBGE, e o jeito de falar muda a cada divisa.

O português une as 5 grandes regiões e as 27 unidades da federação listadas pelo IBGE, mas o vocabulário muda de um estado para o outro. O mesmo espanto pode sair como “égua”, “oxente”, “uai” ou “bah”, conforme o lugar.
Saber essas palavras ajuda quem viaja, muda de cidade a trabalho ou tem colega de outro estado. Ajuda também o estudante: a matriz do Enem, do Inep, cobra a habilidade de identificar as marcas das variedades regionais da língua.
A lista abaixo reúne 40 gírias e expressões, oito por região, com o lugar onde são mais ouvidas, o significado e um exemplo. As frases de exemplo foram escritas pela redação. As palavras viajam com as pessoas, a música e a internet, e muitas já são entendidas no país inteiro.
A variedade vai além do português. O Censo 2022 do IBGE registrou 295 línguas indígenas faladas no país, 21 a mais do que em 2010. As línguas indígenas também deixaram palavras no dia a dia, como carapanã e pitiú, de origem tupi, ouvidas no Norte.
Norte e Nordeste, do égua ao oxente
No Norte, a palavra-símbolo é o “égua” do Pará, que muda de sentido conforme o tom de voz. Em Manaus e em Belém, o peixe de cada dia também entrou no vocabulário.
| Gíria | Onde | O que quer dizer | Exemplo |
|---|---|---|---|
| égua | Pará | Espanto, admiração ou irritação | “Égua, que chuva foi essa?” |
| pai d’égua | Pará | Muito bom, excelente | “O show de ontem foi pai d’égua.” |
| de rocha | Amazonas e Pará | De verdade, com certeza | “Amanhã eu vou, de rocha.” |
| leso | Amazonas e Pará | Bobo, distraído | “Deixa de ser leso, a chave tá na tua mão.” |
| brocado | Amazonas | Com muita fome | “Bora almoçar, que eu tô brocado.” |
| pitiú | Amazonas e Pará | Cheiro forte, como o de peixe | “Passa limão na mão pra tirar o pitiú.” |
| pegar o beco | Amazonas | Ir embora | “Já deu a hora, vou pegar o beco.” |
| carapanã | Região Norte | Mosquito, pernilongo | “Fecha a janela, que tá cheio de carapanã.” |
No Nordeste, “oxente” e a forma curta “oxe” atravessam os nove estados. Outras palavras têm endereço mais certo, como o “visse” de Pernambuco e o “macho” do Ceará.
| Gíria | Onde | O que quer dizer | Exemplo |
|---|---|---|---|
| oxente | Todo o Nordeste | Espanto ou estranheza | “Oxente, tu já voltou?” |
| arretado | Pernambuco, Paraíba e Bahia | Muito bom; também irritado | “Esse forró é arretado demais.” |
| visse | Pernambuco | “Viu?”, “entendeu?”, no fim da frase | “Chego às oito, visse?” |
| mainha e painho | Bahia e outros estados | Mãe e pai, com carinho | “Domingo eu almoço na casa de mainha.” |
| massa | Pernambuco e Bahia | Legal, ótimo | “Que massa a tua bicicleta nova!” |
| aperreado | Todo o Nordeste | Aflito, preocupado, aborrecido | “Tô aperreada com a prova de amanhã.” |
| mangar | Todo o Nordeste | Zombar, caçoar | “Tá mangando de mim, é?” |
| macho | Ceará | Jeito de chamar o amigo, como “cara” | “Macho, tu viu o jogo ontem?” |
Centro-Oeste e Sudeste, do véi ao uai
Brasília, cidade de 1960 feita por gente de todos os estados, criou um vocabulário próprio em poucas décadas. Em Goiás, a exclamação da vez é “rensga”. Em Cuiabá, quem chega de fora e fica ganha um apelido.
| Gíria | Onde | O que quer dizer | Exemplo |
|---|---|---|---|
| véi | Distrito Federal | Jeito de chamar qualquer pessoa, como “cara” | “Véi, a prova tava difícil.” |
| paia | Distrito Federal e Goiás | Sem graça, ruim, chato | “A festa tava paia, voltei cedo.” |
| camelo | Distrito Federal | Bicicleta | “Vou de camelo pra aula.” |
| baú | Distrito Federal | Ônibus | “Perdi o baú das sete.” |
| rensga | Goiás | Exclamação de espanto ou alegria | “Rensga, que pamonha boa!” |
| dar conta | Goiás | Conseguir, aguentar | “Não dou conta de comer isso tudo.” |
| vôte | Mato Grosso | Espanto, surpresa ou repulsa | “Vôte, que calor é esse?” |
| pau-rodado | Mato Grosso | Quem veio de outra cidade e ficou | “Sou pau-rodado, cheguei a Cuiabá há 20 anos.” |
No Sudeste, cada capital tem a sua marca. Minas Gerais resolve quase tudo com “uai” e “trem”. São Paulo chama o amigo de “meu”, o Rio de Janeiro desconfia de “caô”, e o Espírito Santo faz a festa “pocar”.
| Gíria | Onde | O que quer dizer | Exemplo |
|---|---|---|---|
| uai | Minas Gerais | Espanto, dúvida ou ênfase | “Uai, mas não era amanhã?” |
| trem | Minas Gerais | Qualquer coisa, objeto ou assunto | “Pega esse trem aí pra mim.” |
| meu | São Paulo | Jeito de chamar alguém, como “cara” | “Meu, que trânsito é esse?” |
| da hora | São Paulo | Legal, muito bom | “O show foi da hora.” |
| rolê | São Paulo | Passeio, volta | “Bora dar um rolê no centro?” |
| caô | Rio de Janeiro | Mentira, conversa fiada | “Isso aí é caô dele.” |
| maneiro | Rio de Janeiro | Legal, bacana | “Maneiro esse teu tênis.” |
| pocar | Espírito Santo | Estourar; também fazer sucesso | “Essa festa vai pocar.” |
Sul, do bah ao dazumbanho
No Rio Grande do Sul, “bah” e “tchê” abrem e fecham a conversa. O Paraná tem o “piá”.
Em Santa Catarina, o falar rápido de Florianópolis junta as palavras: “dás um banho” vira “dazumbanho”, elogio para quem faz algo muito bem. Quem visita a capital catarinense ouve a expressão no mercado e na praia.
| Gíria | Onde | O que quer dizer | Exemplo |
|---|---|---|---|
| bah | Rio Grande do Sul | Espanto, admiração ou desânimo | “Bah, que frio!” |
| tchê | Rio Grande do Sul | Jeito de chamar alguém, como “cara” | “Mas que jogo, tchê!” |
| tri | Rio Grande do Sul | Muito; também muito bom | “O churrasco tava tri bom.” |
| guri e guria | Rio Grande do Sul | Menino e menina; rapaz e moça | “A guria passou no vestibular.” |
| capaz | Rio Grande do Sul | “Imagina!”, “de jeito nenhum” | “Incomodo?” “Capaz!” |
| piá | Paraná | Menino, garoto | “O piá já tá na escola.” |
| tanso | Santa Catarina | Bobo, lerdo | “Não seja tanso, presta atenção.” |
| dás um banho | Santa Catarina | “Você arrasa”, elogio | “Dás um banho na cozinha, hein?” |
A lista não esgota o assunto, e uma palavra apontada para um estado pode ser ouvida no vizinho. “Guri”, por exemplo, também circula em Santa Catarina e no Paraná, e “trem” é comum em Goiás.
Para quem tem filho no ensino médio, o tema rende estudo. A variação linguística aparece na prova de Linguagens, e a redação pede o registro formal. O Enem 2026 será aplicado em 8 e 15 de novembro, dois domingos.
A regra de fundo está na Constituição: o artigo 13 diz que a língua portuguesa é o idioma oficial do país. O texto não escolhe sotaque nem vocabulário. Até o Hino Nacional tem palavras que pedem dicionário, como “lábaro” e “garrida”.
Quem quiser ir mais fundo pode visitar o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo. Ele abre de terça a domingo, das 9h às 16h30, e não cobra entrada às terças e aos domingos, segundo o museu.
Como citar: Ouviram (8 out. 2026). «40 gírias brasileiras por região, do “égua” do Pará ao “bah” gaúcho». ouviram.com.br/cultura/girias-brasileiras-por-regiao
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre gíria e regionalismo?
Gíria é a palavra ou expressão informal de um grupo ou de uma época, como “da hora”. Regionalismo é o termo próprio de um lugar, como “carapanã” para mosquito no Norte. Muitas palavras são as duas coisas ao mesmo tempo.
Falar gíria é errado?
Não. A gíria faz parte da língua falada e combina com conversas informais. Em redação, prova, documento ou entrevista de emprego, o esperado é a norma-padrão.
Pode usar gíria na redação do Enem?
A redação do Enem é um texto dissertativo-argumentativo, e uma das cinco competências avaliadas pelo Inep é o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. Gírias contam como desvio de registro.
Por que cada região do Brasil fala de um jeito?
Porque a língua mudou de forma diferente em cada lugar, conforme os povos que ali viveram: indígenas, africanos, portugueses e imigrantes de várias origens. Distância, migrações internas, música e televisão também espalham ou isolam palavras.
De onde vem a palavra carapanã?
Vem do tupi e é o nome dado ao mosquito no Norte do país. É um dos muitos termos de origem indígena que continuam no português falado no Brasil.
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1. Em que estado “égua” é usado como exclamação de espanto?
“Égua” é marca da fala do Pará e serve para espanto, admiração ou irritação, conforme o tom.
2. O que quer dizer “camelo” em Brasília?
Em Brasília, camelo é bicicleta. O ônibus é chamado de baú.
3. Onde se diz “pocar” para estourar ou fazer sucesso?
“Pocar” é gíria capixaba e vem do verbo espocar, que significa estourar.
4. Quantas línguas indígenas o Censo 2022 registrou no Brasil?
O IBGE contou 295 línguas indígenas faladas no país em 2022; em 2010, eram 274.
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