Navi Pillay, juíza sul-africana que julgou o genocídio de Ruanda, ganha o Nobel da Paz de 2026
A jurista de 85 anos esteve na primeira turma de juízes do Tribunal Penal Internacional, com a brasileira Sylvia Steiner, e hoje atua no caso contra Mianmar.

A jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos, ganhou o Nobel da Paz de 2026, anunciou o Comitê Norueguês do Nobel nesta sexta-feira (9), em Oslo. O comitê premiou o trabalho dela “para promover a paz e o direito internacional”.
O anúncio saiu às 6h de Brasília. Ao justificar a escolha, o comitê afirmou que o sistema de leis entre os países está “sob enorme pressão” e que suas instituições vêm sendo atacadas. Isso ocorre, segundo o texto, num momento com mais guerras e conflitos do que o mundo via havia muito tempo.
“A paz exige justiça”, diz o comunicado. O texto chama os juízes de guardiões da “fina linha vermelha entre a ordem e o caos” e lembra que esses juízes hoje são alvo de sanções.
Pillay nasceu em Durban, em 23 de setembro de 1941, numa família de origem tâmil indiana, e cresceu sob o apartheid, o regime de segregação racial da África do Sul. Em 1967, abriu o próprio escritório de advocacia e passou a defender opositores do regime, entre eles Nelson Mandela, segundo a organização do Nobel.
Foram oito anos no Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado pela ONU para julgar o genocídio de 1994. Nos quatro últimos, de 1999 a 2003, ela presidiu a corte. Ali, segundo o comitê, a influência dela pesou para que o tribunal reconhecesse que o estupro e a violência sexual podem constituir crime contra a humanidade e genocídio.
Foi nesse tribunal também que, pela primeira vez, um réu respondeu por incitação ao genocídio apenas por espalhar propaganda, diz o comunicado do Nobel.
Em 2003, Pillay entrou para a primeira composição do Tribunal Penal Internacional, em Haia, com 18 juízes. Uma das colegas era a brasileira Sylvia Steiner, ex-procuradora da República e desembargadora federal, que ficou na corte até 2012, segundo o próprio tribunal.
De 2008 a 2014, foi alta comissária da ONU para os Direitos Humanos. No cargo, fez em novembro de 2009 a primeira visita oficial ao Brasil, com passagens por Salvador, por uma comunidade afro-brasileira perto da capital baiana, pelo Rio de Janeiro e por Brasília, segundo a ONU.
Depois, presidiu de 2021 a 2025 a comissão de inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado. Desde 2019, integra a Corte Internacional de Justiça como juíza escolhida especialmente para o processo em que Mianmar é acusado de genocídio.
Com Pillay, o Nobel já foi dado a mulheres 70 vezes desde 1901, somadas todas as categorias, segundo a lista oficial do prêmio. Nesta semana, a Academia Sueca já havia premiado a poeta canadense Anne Carson no Nobel de Literatura, e o Nobel de Química foi para um francês e um japonês.
O último prêmio da temporada, o de Economia, sai na segunda-feira (12), feriado de Nossa Senhora Aparecida no Brasil. Pillay recebe a medalha, o diploma e os 12 milhões de coroas suecas em 10 de dezembro, em Oslo, no aniversário da morte de Alfred Nobel.
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