Nobel de Economia de 2026 vai para americanos que mudaram a forma de controlar a inflação
Robert Hall, de Stanford, e Michael Woodford, de Columbia, dividem 12 milhões de coroas suecas, anunciou a Real Academia Sueca de Ciências.

Os americanos Robert E. Hall e Michael Woodford ganharam o Nobel de Economia nesta segunda (12), anunciou a Real Academia Sueca de Ciências. Os modelos criados a partir do trabalho dos dois ajudam bancos centrais, como o do Brasil, a decidir quando subir ou baixar os juros.
A Academia premiou a dupla por dar bases microeconômicas à política de estabilização, o conjunto de medidas que governos e bancos centrais usam para suavizar os altos e baixos da economia. Em vez de olhar só os grandes números, como inflação e produção, os modelos partem das decisões de milhões de famílias e empresas.
A mudança tem raiz numa crise. Nos choques do petróleo dos anos 1970, as receitas usadas até então pararam de funcionar: o desemprego não caiu e a inflação saiu do controle. Muita gente passou a achar que a política de estabilização fazia mais mal do que bem, segundo a Academia.
“O trabalho dos laureados nos deu uma base teórica estável para os modelos usados hoje por bancos centrais e governos do mundo inteiro”, disse John Hassler, presidente do comitê do prêmio, no comunicado da Academia. Segundo ele, com esses modelos é possível enfrentar melhor choques como crises de energia ou mudanças repentinas no consumo das famílias.
Hall virou do avesso uma dúvida antiga. Se as famílias decidem quanto gastar pensando na renda que esperam ter, raciocinou ele, o próprio consumo é o melhor retrato dessas expectativas.
As famílias só mudam de comportamento quando surge uma informação nova, e o novo, por definição, não se prevê. Num artigo de 1978, Hall mostrou que as mudanças no consumo de fato não podiam ser previstas.
Em 1982, com Fredric Mishkin, ele testou a ideia com dados de famílias reais. Cerca de 80% decidiam o consumo como a teoria previa, conta a Academia. As demais viviam da mão para a boca, gastando tudo o que entrava no mês.
80%
das famílias estudadas por Hall e Mishkin em 1982 decidiam quanto gastar olhando a renda esperada
Fonte: Real Academia Sueca de Ciências, 12/10/2026
Woodford juntou essas peças num livro de 2003. Ali está um modelo completo, de três equações, que virou o protótipo de todos os modelos novo-keynesianos feitos depois, na descrição da Academia. Ele funciona como um laboratório: o que acontece com a produção e com a inflação se o juro cair? Quanto o juro precisa subir para segurar os preços?
Inspirado no sueco Knut Wicksell, Woodford mostrou que os bancos centrais conseguem acelerar ou frear a economia mexendo nos juros, sem precisar controlar a quantidade de dinheiro em circulação.
No modelo, as empresas também olham para a frente ao reajustar preços. Por isso a palavra do banco central pesa: comunicar com clareza o que pretende fazer passou a fazer parte do trabalho, aponta o comitê.
Outra contribuição dele é o hiato do produto, a distância entre o que a economia produz e o que produziria sem travas nos preços. Diante de um choque como a alta repentina da energia, o modelo recomenda subir os juros para evitar que a inflação dispare. Para a Academia, essa leitura permitiu responder aos choques recentes melhor do que nos anos 1970.
O Brasil tem a sua versão desse laboratório. Em 2011, o Banco Central apresentou o SAMBA, modelo do mesmo tipo feito para a economia brasileira, num estudo de cinco pesquisadores da instituição, que o descrevem como útil para analisar decisões e fazer projeções.
O SAMBA foi estimado com dados a partir de 1999, quando o país adotou as metas de inflação. Também inclui traços daqui, como os preços administrados, que dependem de contrato ou de decisão do poder público, caso da conta de luz.
A discussão chega ao bolso. A taxa Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, depois de cinco cortes em 2026, segundo o Banco Central.
Em setembro, a inflação oficial acumulou 4,58% em 12 meses e passou do teto de 4,5% da meta, segundo o IBGE. A cada reunião, o Comitê de Política Monetária, o Copom, divulga as projeções de inflação em que apoia a decisão sobre os juros.
Hall nasceu em 1943 em Palo Alto, na Califórnia, fez doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 1967 e é professor da Universidade Stanford. Woodford nasceu em 1955 em Chicopee, em Massachusetts, doutorou-se no MIT em 1983 e dá aulas na Universidade Columbia, em Nova York. Os dois dividem o prêmio em partes iguais.
O prêmio de Economia encerra os anúncios do Nobel de 2026. Medicina premiou Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, pela optogenética, e Física, Francis Halzen, pelo observatório de neutrinos IceCube. Em Química, venceram Henri Kagan e Kenso Soai; em Literatura, a poeta Anne Carson; e na Paz, a jurista Navi Pillay.
Criado pelo Banco Central da Suécia em 1968, o prêmio de Economia será entregue em 10 de dezembro, em Estocolmo, junto com os de Física, Química, Medicina e Literatura. No Brasil, o Copom volta a decidir a Selic em 4 de novembro.
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1. Desde quando existe o prêmio de Economia em memória de Alfred Nobel?
O prêmio foi criado pelo Banco Central da Suécia, o Sveriges Riksbank, em 1968 e entregue pela primeira vez em 1969, segundo a Fundação Nobel.
2. Que instituição escolhe os vencedores do Nobel de Economia?
A Real Academia Sueca de Ciências escolhe os prêmios de Economia, Física e Química. O da Paz fica com o comitê norueguês, e o de Medicina, com o Instituto Karolinska.
3. Que economista sueco inspirou a ideia de juro natural usada por Woodford?
Knut Wicksell introduziu o conceito de juro natural no fim do século 19, segundo a Real Academia Sueca de Ciências.
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