Juros e inflaçãoExplicador
Rotativo do cartão cobra 444,89% ao ano, 18 vezes o consignado do INSS
Em agosto, o cheque especial custou 136,41% ao ano e o crédito pessoal, 110,22%, com a inadimplência das famílias na maior marca da série histórica.

Os juros do rotativo do cartão de crédito ficaram em 444,89% ao ano em agosto, segundo o Banco Central. Na prática, quem deixa R$ 1.000 da fatura no rotativo começa o mês seguinte devendo R$ 151,80 a mais, só de juros. No consignado de aposentados do INSS, a mesma dívida custaria R$ 18,20.
Os números são da pesquisa mensal do Banco Central com as taxas médias cobradas pelos bancos, divulgada em 29 de setembro com dados de agosto, os mais recentes. O rotativo cobra 32 vezes a taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano. Por isso, trocar uma dívida de 6% ao mês por outra de 2% economiza mais do que a poupança rende, hoje 0,5% ao mês mais a TR.
O momento pede atenção. No crédito com recursos livres, aquele em que o banco define a taxa, a inadimplência das famílias chegou a 8,01% em agosto. É a maior da série, iniciada em março de 2011. Em julho, as famílias comprometeram 28,72% da renda com o pagamento de dívidas, também o maior nível da série, iniciada em 2005, segundo o Banco Central.
Taxa por taxa, do rotativo ao imobiliário
A tabela mostra a taxa média de cada linha para pessoa física. A média esconde diferenças entre bancos: o próprio Banco Central publica, em seu site, a lista das taxas cobradas por instituição.
| Linha de crédito | Ao mês (ago/2026) | Ao ano (ago/2026) | Ao ano (ago/2025) |
|---|---|---|---|
| Cartão rotativo | 15,18% | 444,89% | 453,64% |
| Cartão parcelado | 9,34% | 192,08% | 185,14% |
| Cheque especial | 7,43% | 136,41% | 138,19% |
| Crédito pessoal não consignado | 6,39% | 110,22% | 103,97% |
| Consignado de trabalhadores do setor privado | 3,79% | 56,34% | 56,30% |
| Aquisição de veículos | 1,97% | 26,42% | 27,34% |
| Consignado de servidores públicos | 1,82% | 24,14% | 24,76% |
| Consignado de aposentados do INSS | 1,82% | 24,12% | 24,08% |
| Financiamento imobiliário | — | 11,28% | 10,49% |
Fonte: Banco Central, taxas médias das operações com pessoas físicas, agosto de 2025 e agosto de 2026
Em um ano, o crédito pessoal sem desconto em folha subiu de 103,97% para 110,22% ao ano, e o cartão parcelado, de 185,14% para 192,08%. O financiamento de veículos ficou um pouco mais barato. O consignado dos trabalhadores com carteira assinada, que pode ser contratado pela Carteira de Trabalho Digital, custa mais que o dobro do consignado do INSS.
Fonte: Banco Central, taxas médias mensais de agosto de 2026; cálculo do Ouviram
A taxa de juros não é o custo inteiro. Antes de assinar, o banco é obrigado a informar o Custo Efetivo Total (CET), que soma juros, tarifas, IOF e seguros, ao mês e ao ano. Duas ofertas com a mesma taxa podem ter CETs diferentes se uma delas embutir um seguro, por exemplo.
Na hora de comparar, peça o CET por escrito e confira o valor total a pagar, somando todas as parcelas. A Calculadora do Cidadão, no site do Banco Central, mostra quanto custa um financiamento a partir do valor, do prazo e da taxa. Desconfie de quem cobra antecipado para liberar empréstimo: banco não pede depósito prévio.
Os limites que já estão em lei
Algumas linhas têm teto. No cartão, o rotativo só pode durar até o vencimento da fatura seguinte, pela Resolução nº 4.549 do Conselho Monetário Nacional (CMN). Depois, o saldo precisa ir para um parcelamento em condições melhores. Desde 2024, a Lei nº 14.690 determina que, nesses casos, o total de juros e encargos “não poderá exceder o valor original da dívida”.
O efeito é grande. Pela taxa média anual, R$ 1.000 deixados por um ano a 444,89% virariam R$ 5.448,90. Com a regra, o máximo cobrado sobre essa dívida é de R$ 1.000 em juros e encargos, e o total fica em R$ 2.000.
No cheque especial, os juros são limitados a 8% ao mês pela Resolução nº 4.765 do CMN, em vigor desde janeiro de 2020; a média de agosto foi de 7,43%.
No consignado do INSS, o teto é fixado pelo Conselho Nacional de Previdência Social, e a parcela não pode passar da margem consignável do benefício. No crédito para a casa própria, as taxas do Minha Casa Minha Vida vão de cerca de 4% a 10% ao ano.
Renegociar: o que está aberto agora
O Novo Desenrola Brasil recebeu adesões até 31 de agosto. Ele renegociava com desconto dívidas de cartão, cheque especial e crédito pessoal atrasadas de 91 dias a dois anos. A medida provisória que o criou perdeu a validade em setembro, segundo a Câmara dos Deputados. Duas outras frentes estão em vigor.
O Desenrola Adimplentes, criado pela Medida Provisória nº 1.373, atende quem tem empréstimo pessoal sem consignação em dia ou com até 90 dias de atraso. As condições, pelo texto da MP, são estas:
- Quem podePessoa sem emprego formal, que não seja servidor público nem aposentado ou pensionista.
- Dívida aceitaCrédito pessoal com pelo menos quatro parcelas pagas até a véspera da publicação da MP e saldo de até R$ 15 mil por banco; cartão e cheque especial ficam de fora.
- Novo empréstimoJuros de no máximo 1,99% ao mês e parcela de até 90% da original, com mínimo de R$ 50.
- OndeBanco do Brasil, Caixa e bancos habilitados por eles.
- Prazo120 dias contados de 29 de junho, ou seja, até o fim de outubro.
O Desenrola Brasil 3.0, criado pela Medida Provisória nº 1.393, de 25 de setembro, funciona de outro jeito. A União vai comprar de bancos e empresas carteiras de dívidas com desconto mínimo de 90%. O devedor poderá quitar à vista ou parcelar, com desconto de até o mesmo percentual obtido na compra.
Entram dívidas de valor original abaixo de R$ 10 mil. Em 25 de setembro, elas precisavam estar atrasadas havia mais de 720 e menos de 1.645 dias, de dois a quatro anos e meio.
Pelo cronograma divulgado pelo governo federal, o chamamento dos credores sai em novembro e os descontos começam a chegar aos devedores em fevereiro de 2027. Até lá, o caminho é negociar direto com o banco ou levar a dívida para outra instituição pela portabilidade de crédito. A portabilidade é gratuita, e o banco de origem pode fazer uma contraproposta.
Quem já não consegue pagar as contas básicas pode pedir a repactuação de todas as dívidas de uma vez, pela Lei do Superendividamento. O pedido é feito no Procon ou na Justiça, que chama os credores para uma audiência de conciliação.
- Fim de outubro de 2026Termina o prazo do Desenrola Adimplentes; o Banco Central divulga as taxas de setembro.
- 4 de novembro de 2026O Copom anuncia a nova taxa Selic, que serve de base para os juros dos bancos.
- Novembro de 2026Chamamento dos credores do Desenrola Brasil 3.0.
- Fevereiro de 2027Início previsto dos descontos aos devedores do Desenrola Brasil 3.0.
Para ver todas as dívidas no seu CPF, use o Registrato, do Banco Central, com a conta gov.br; é gratuito. Reclamações contra bancos podem ser registradas no Banco Central, pelo telefone 145, e no Procon da sua cidade.
Como calculamos. Os juros de um mês aplicam a taxa média mensal de agosto de 2026, do Banco Central, a uma dívida de R$ 1.000, sem IOF nem tarifas. A projeção de um ano usa a taxa anual do rotativo, de 444,89%, como se a dívida ficasse 12 meses nessa modalidade, o que as regras atuais não permitem. A comparação divide a taxa anual do rotativo pela Selic de 13,75%.
Como citar: Ouviram (7 out. 2026). «Rotativo do cartão cobra 444,89% ao ano, 18 vezes o consignado do INSS». ouviram.com.br/economia/juros-do-cartao-e-emprestimo-hoje
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
Qual é a taxa de juros do cartão de crédito rotativo hoje?
Foi de 444,89% ao ano, ou 15,18% ao mês, em agosto de 2026, o dado mais recente do Banco Central. O rotativo é cobrado quando você paga só parte da fatura.
Qual empréstimo tem os juros mais baixos?
Entre as linhas sem garantia de imóvel, o consignado de aposentados do INSS e de servidores públicos, com média de 1,82% ao mês em agosto, segundo o Banco Central. O financiamento imobiliário custou em média 11,28% ao ano.
O que é o Custo Efetivo Total (CET)?
É o custo completo do empréstimo, com juros, tarifas, tributos e seguros, expresso ao mês e ao ano. O banco é obrigado a informá-lo antes da contratação, e é o número que deve ser comparado entre as ofertas.
Existe limite para os juros do rotativo do cartão?
Sim. Desde 2024, pela Lei nº 14.690, o total de juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não pode passar do valor original da dívida. Além disso, o rotativo só pode durar até o vencimento da fatura seguinte.
O Desenrola está aberto em outubro de 2026?
O Novo Desenrola Brasil recebeu adesões até 31 de agosto. Hoje está aberto o Desenrola Adimplentes, para quem tem empréstimo pessoal em dia e não tem emprego formal; o Desenrola Brasil 3.0, para dívidas atrasadas de até R$ 10 mil, tem início previsto para fevereiro de 2027.
Como saber todas as minhas dívidas com bancos?
Pelo Registrato, serviço gratuito do Banco Central, acessado com a conta gov.br. Ele mostra empréstimos, financiamentos e cartões ligados ao seu CPF.
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1. Quanto custou o rotativo do cartão em agosto de 2026?
Foram 444,89% ao ano, segundo o Banco Central. 136,41% é o cheque especial, e 24,12%, o consignado do INSS.
2. Qual é o teto de juros do cheque especial?
A Resolução nº 4.765 do Conselho Monetário Nacional limita os juros do cheque especial a 8% ao mês desde janeiro de 2020.
3. Por quanto tempo o banco pode manter uma dívida no rotativo do cartão?
Pela Resolução nº 4.549 do CMN, o rotativo vale só até o vencimento da fatura seguinte; depois, o saldo vai para um parcelamento mais barato.
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