BitcoinAnálise
Mineração de bitcoin no Brasil: luz custa o dobro do Paraguai, que minera 13 vezes mais
Uma fazenda de 10 megawatts ligada à rede exige cerca de R$ 100 milhões e devolveria só de 14% a 16% do valor até o fim de 2028, pelas contas do Ouviram.

Uma mineradora de 10 MW paga de R$ 506 a R$ 558 por MWh no Brasil, o dobro da tarifa da ANDE no Paraguai, pelas contas do Ouviram. Para quem pensa em minerar bitcoin, essa diferença decide se o negócio fecha ou não.
Os valores, com impostos, somam as tarifas de rede aprovadas pela ANEEL na Bahia, em Pernambuco e no Paraná e a energia do mercado livre: US$ 102 a 112 por megawatt-hora (MWh). No Paraguai, a estatal ANDE cobra US$ 49,5, cerca de R$ 247, numa ligação de 220 quilovolts.
A conta ajuda a explicar um contraste entre vizinhos. O Paraguai é o quarto país do mundo em mineração de bitcoin, com cerca de 4,8% da capacidade de cálculo da rede. O Brasil tem cerca de 13 vezes menos e não aparece entre os dez primeiros.
Pelas contas do Ouviram, no cenário-base, nenhuma fazenda nova ligada à rede no Brasil recupera o investimento até o fim de 2028. As opções que rendem mais passam pelas usinas do Nordeste, que jogam energia fora, e pela hospedagem de máquinas no país vizinho.
Minerar é pôr computadores especializados, os ASIC, para resolver os cálculos que validam as transações do bitcoin. Quem acerta primeiro leva a recompensa do bloco, hoje de 3,125 bitcoins. Uma máquina moderna gasta cerca de 2.600 kWh por mês, como quase nove casas que usam 300 kWh.
Paraguai, 4º do mundo
O Paraguai minera com a energia de Itaipu. Em março, a ANDE tinha 41 contratos na tarifa especial para mineração e centros de dados, com 943,8 MW reservados. Essas empresas consomem cerca de 13,5% da energia que cabe ao Paraguai na usina.
O dado interessa ao Brasil. Pelo tratado de Itaipu, a energia que o Paraguai não usa é cedida ao lado brasileiro. Cada megawatt que as mineradoras consomem do outro lado da fronteira é energia que deixa de vir para cá.
Quatro empresas somam 730 MW, mais de três quartos do total. A maior investidora, a canadense HIVE, declarou à SEC, a comissão de valores americana, US$ 352,8 milhões em ativos no país em 31 de março.
A tarifa, em dólar, não muda desde junho de 2024, pela Resolução P/Nº 49238. Em troca, a ANDE pode mandar cortar até 95% da carga por até 300 horas no ano. A entrada exige depósito de três meses de conta, cerca de US$ 96 mil por megawatt.
A vantagem tem prazo. Todos os contratos dessa tarifa vencem em 31 de dezembro de 2027, e não há preço definido para depois. A ANDE espera a revisão do Anexo C de Itaipu para fixá-lo, a parte do tratado que define as bases financeiras da usina.
A fila também pesa. Em setembro, o presidente da ANDE, Miguel Báez, informou que mineradoras e centros de dados têm 1.300 MW sob contrato e pedidos de outros 6.300 MW. Na prática, quem chega agora dificilmente consegue ligar uma fazenda nova.
No Brasil, a mineração cresceu em 2025 e parou em cerca de 0,37% da capacidade mundial. Pelas contas do Ouviram, é uma carga de 70 a 105 MW no país todo, menos que uma só fazenda grande paraguaia.
Da Bahia ao Paraná, a rede pesa
Desde janeiro de 2024, qualquer consumidor de média ou alta tensão pode comprar energia no mercado livre. Uma fazenda nova assina o uso da rede com a distribuidora e a compra de energia com um comercializador.
A energia em contratos de 2028 a 2031 sai por cerca de R$ 220 por MWh, sem impostos. Somam-se a tarifa de uso da rede (TUSD), aprovada pela ANEEL, encargos da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e impostos.
Só a rede, com impostos, custa de R$ 207 a R$ 222 (US$ 41 a 45) por MWh a uma fazenda de 10 MW na Bahia e no Paraná. É quase o preço total que a ANDE cobra de uma mineradora paraguaia.
Dentro da TUSD está a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que paga os subsídios do setor. Pela proposta da ANEEL para 2026, suas cotas sobem 15,4%. Na alta tensão, a CDE custa R$ 44,30 por MWh no Norte e no Nordeste e R$ 68,23 no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.
Na média tensão, onde se liga uma fazenda de 1 MW, sobe para R$ 70,89 e R$ 109,16. Por isso, a fazenda pequena paga mais. Com 95% de uso e impostos, o MWh fica assim:
| Estado (distribuidora) | 1 MW, média tensão | 10 MW, alta tensão |
|---|---|---|
| Bahia (Coelba) | R$ 836 (US$ 168) | R$ 549 (US$ 110) |
| Paraná (Copel) | R$ 700 (US$ 140) | R$ 558 (US$ 112) |
| Pernambuco (Neoenergia) | R$ 645 (US$ 129) | R$ 506 (US$ 102) |
Fonte: cálculo do Ouviram com tarifas aprovadas pela ANEEL em 2026 e energia do mercado livre, outubro de 2026.
O ICMS da energia é de 20,5% na Bahia e em Pernambuco e de 19% nas tarifas com impostos da Copel. A mineradora não consegue recuperá-lo, porque a venda de bitcoin não paga ICMS. Já o PIS/Cofins pode virar crédito para empresas no lucro real.
Em junho, a revisão da Copel aprovada pela ANEEL elevou em 21,87% a tarifa de alta tensão. Já as bandeiras tarifárias da conta de luz não valem no mercado livre.
O preço à vista, o PLD, calculado pela CCEE, estava em R$ 58,17 por MWh em 9 de outubro, perto do piso de R$ 57,31. O teto é de R$ 785,27 na média do dia e de R$ 1.611,04 numa hora: quem minera nesse preço ganha nas chuvas e perde na seca.
A tarifa brasileira é em reais, e a paraguaia, em dólares. Por isso a comparação muda com a cotação do dólar: quando a moeda americana sobe, a energia brasileira fica mais barata para quem fatura em bitcoin.
O Brasil tem algo que o Paraguai não tem: energia limpa que sobra e é jogada fora. Entre janeiro e abril, 17,2% da geração eólica e solar possível foi cortada, segundo dados do ONS, o Operador Nacional do Sistema Elétrico. Quase quatro quintos dos cortes ocorreram no Nordeste.
De janeiro a agosto, a média chegou a cerca de 4 GW desperdiçados, de 35 a 55 vezes o consumo de toda a mineração brasileira. A maior parte vem do excesso de oferta em certas horas; outra, dos limites da transmissão.
É nesse excedente que apostam os projetos brasileiros. Eles instalam as máquinas ao lado das usinas, sem passar pela rede, e assim não pagam TUSD, CDE nem encargos da CCEE.
- Mato Grosso do SulEm Ivinhema, a Adecoagro, controlada pela Tether, roda 1.280 máquinas com 10 MW de energia do bagaço de cana e planeja chegar a 40 MW.
- BahiaA Renova Energia anunciou 100 MW junto a um parque eólico em Igaporã, com US$ 200 milhões de um cliente não identificado.
- PiauíEm Parnaíba, a Enegix prevê até 100 MW e até US$ 120 milhões.
- PilotoA paulista Radius captou R$ 28 milhões, faz operação e manutenção para a Axia, antiga Eletrobras, na Bahia e negociava em abril um acordo de 6 MW médios.
Nenhum desses contratos tem preço público; em alguns, a mineradora divide o lucro com o gerador. Acordos de ICMS, como o da Bahia com o projeto da Renova, são feitos caso a caso.
O modelo tem limite: os cortes variam com o sol, o vento e a estação, e a máquina só se paga se trabalhar quase o tempo todo. Em 2025, a paraguaia Penguin procurou 400 MW no Brasil e descreveu a busca como difícil.
US$ 412 mil por bitcoin para empatar
A máquina de referência é a S21 XP, uma das mais eficientes, por cerca de US$ 3.500 (R$ 17,5 mil) na origem. O Gecex zerou, temporariamente, o imposto de importação dessas máquinas quando novas.
Mesmo assim, o IPI de 15%, o PIS/Cofins-Importação de 11,75% e o ICMS de 18% a 20,5% pesam. A S21 XP chega ao Brasil por US$ 5.725 a 5.905, ou R$ 28,6 mil a R$ 29,5 mil. Sem o benefício, a mesma máquina sairia por US$ 6.550 (R$ 32,7 mil). Máquinas usadas ficam fora dele.
No Paraguai, a mesma máquina custa US$ 4.164 (R$ 20,8 mil) já com frete, tarifa aduaneira e IVA. Fica de 27% a 30% mais barata que no Brasil.
A atividade é legal e não exige licença. A Lei 14.478, de 2022, regula só quem presta serviços com ativos virtuais “em nome de terceiros”, como as corretoras. Mandar bitcoin ao exterior, porém, conta como câmbio para o Banco Central.
Um projeto que cria licença para minerador, o PL 2.766/2025, aguarda parecer na Câmara desde setembro de 2025. O Redata, incentivo a data centers da Lei 15.504, de 15 de setembro, tampouco parece servir: não cita a mineração. Em troca dos benefícios, exige oferecer ao mercado interno ao menos 10% da capacidade ou investir 10% do valor dos equipamentos em pesquisa.
A Receita Federal ainda não definiu como tributar a mineração. Uma empresa no lucro presumido pagaria até cerca de 14,5% da receita, mesmo com prejuízo. No lucro real, são 34% do lucro, com crédito de PIS/Cofins sobre a energia.
Para abrir a operação, os passos são estes, incluindo o registro de investimento estrangeiro direto no Banco Central:
- EmpresaSociedade limitada, registrada na Junta Comercial em 15 a 30 dias, com taxas de R$ 110 a R$ 520.
- Sócio estrangeiroCPF pelo consulado, representante residente e registro no Banco Central, em até 30 dias, de aportes a partir de US$ 100 mil.
- EnergiaContrato de rede com a distribuidora e de energia com um comercializador; abaixo de 500 kW, só por comercializador varejista.
- LigaçãoOrçamento de conexão em 45 dias, pela norma da ANEEL; obras de 69 kV ou mais seguem cronograma acertado.
- LicençasLicença ambiental do estado, alvará da prefeitura e laudo do Corpo de Bombeiros.
- PrazoDe 4 a 7 meses para 1 MW e de 12 a 24 meses para 10 MW, nas estimativas do Ouviram.
Com máquinas novas, uma fazenda de 10 MW exige cerca de R$ 100 milhões, dos quais R$ 77 milhões em máquinas. No Paraguai, o mesmo projeto sai por R$ 70,5 milhões.
Com o bitcoin a US$ 82.400 e a rede de 9 de outubro, uma S21 XP só paga a própria energia se o MWh custar até US$ 119 (R$ 594). Numa fazenda de 10 MW na Bahia, sobram US$ 22 (R$ 110) por máquina ao mês. Seriam 22 anos para recuperá-la.
Em abril de 2028, o halving, corte programado da recompensa, reduz o prêmio do bloco à metade. Depois disso, a máquina só cobre energia de até US$ 54 a 64 por MWh, cerca de metade da tarifa de rede brasileira.
| Paraguai | Brasil | |
|---|---|---|
| Energia, 10 MW, por MWh | US$ 49,5 a 54,4 | US$ 102 a 112 |
| Energia, 1 MW, por MWh | US$ 67,2 | US$ 129 a 168 |
| Máquina S21 XP com impostos | US$ 4.164 | US$ 5.725 a 5.905 |
| Fazenda de 10 MW | US$ 14,1 milhões | US$ 20,1 milhões |
| Imposto da empresa | 10% do lucro, mais 8% ou 15% ao distribuir | 34% do lucro ou até 14,5% da receita |
| Contratos de energia com preço | até dezembro de 2027 | até 2031 |
Fonte: ANDE, ANEEL e cálculo do Ouviram, outubro de 2026.
O cenário-base supõe bitcoin a US$ 90 mil no fim de 2027 e a US$ 100 mil no fim de 2028, com a dificuldade subindo 1,5% ao mês. Nele, a fazenda brasileira de 10 MW devolve de 14% a 16% do investimento até dezembro de 2028. Com bitcoin a US$ 160 mil, até 27%.
Mesmo com energia de graça, a fazenda devolveria 47%. Para empatar, o bitcoin teria de valer US$ 412 mil no fim de 2028, cinco vezes o preço de hoje. Com energia ao pé da usina a US$ 40 por MWh, valor suposto pelo Ouviram, seriam US$ 326 mil.
Para começar pequeno, há a hospedagem: a máquina fica no galpão de um operador, que cobra por kWh. Um operador estrangeiro anuncia vagas no Brasil a US$ 0,048 a 0,075 (R$ 0,24 a 0,37), sem dizer o estado. No Paraguai, os preços vão de US$ 0,045 a 0,080.
Fonte: cálculo do Ouviram com tarifas da ANDE e da ANEEL, outubro de 2026
Para um brasileiro, hospedar no Paraguai rende mais. A máquina vai direto para lá, sem IPI, PIS/Cofins e ICMS, e a energia não sai mais cara. Dez máquinas custam R$ 207,8 mil (US$ 41,6 mil) no Paraguai e R$ 285,7 mil (US$ 57,3 mil) no Brasil.
A US$ 0,045 por kWh, a hospedagem paraguaia empata com bitcoin a US$ 119 mil em dezembro de 2028; a brasileira, a US$ 164 mil. Se a dificuldade da rede ficar como hoje, a paraguaia devolve 97%.
Pela Lei 14.754, de 2023, o ganho com bitcoin mantido no exterior paga 15% de Imposto de Renda ao ano, sem a isenção de R$ 35 mil mensais. O risco está em 2028: se a ANDE subir a tarifa após o fim dos contratos, o operador pode repassar a alta.
Para trazer as máquinas ao Brasil sem o imposto de importação, é preciso habilitação no Radar, o cadastro de importadores da Receita Federal, e máquinas novas. O benefício vale até 30 de novembro de 2027 e, para os modelos mais eficientes, até 31 de janeiro de 2028.
Como calculamos. Cruzamos a Resolução P/Nº 49238 da ANDE com as tarifas de 2026 aprovadas pela ANEEL para Coelba, Copel e Neoenergia Pernambuco. A energia do mercado livre entra a R$ 220,77 por MWh. As máquinas levam os impostos de cada país, com dólar a R$ 4,99 e 95% de uso. Bitcoin e dificuldade são de 9 de outubro; os cenários incluem o halving e a revenda das máquinas.
Como citar: Ouviram (9 out. 2026). «Mineração de bitcoin no Brasil: luz custa o dobro do Paraguai, que minera 13 vezes mais». ouviram.com.br/economia/mineracao-bitcoin-brasil-custo-energia-paraguai
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
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