Ciência brasileira

Dinossauro do Ceará tem sinais de sangue preservados há 115 milhões de anos

O Aratasaurus, retirado de uma mina de gesso de Santana do Cariri, tem restos de hemoglobina dentro de células dos ossos, segundo artigo publicado na PNAS.

Fachada do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, no Ceará
Museu de Paleontologia da URCA, em Santana do Cariri, onde fica o fóssil do Aratasaurus, em imagem de 2006.Foto: Allan Patrick / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Um fóssil de dinossauro de 115 milhões de anos achado no Ceará guarda restos de células do sangue, segundo estudo publicado na revista PNAS. São hemácias, as células vermelhas, do Aratasaurus museunacionali, da coleção da Universidade Regional do Cariri (URCA). O artigo saiu nesta segunda-feira (2).

Os pesquisadores acharam moléculas derivadas do heme, a parte da hemoglobina que carrega o ferro. Elas estavam dentro de pequenas estruturas ovais, presas aos canais por onde passavam os vasos sanguíneos nos ossos da perna. Os autores interpretam essas estruturas como hemácias mineralizadas, ou seja, transformadas em mineral.

O resultado chama atenção porque moléculas frágeis como a hemoglobina se desfazem rápido e se contaminam com facilidade. Por isso, segundo o próprio artigo, a detecção de material original em fósseis de vertebrados ainda divide os especialistas. Para afastar a contaminação, a equipe comparou o osso com a rocha em volta, que tem outra assinatura química, com sinais de clorofila.

“Detectar moléculas intactas derivadas do heme em hemácias de 115 milhões de anos é impressionante”, disse a geoquímica Kliti Grice, da Universidade Curtin, na Austrália, em comunicado. Líder do trabalho, ela afirmou que o achado contesta a ideia antiga de que biomoléculas como a hemoglobina não resistem a tanto tempo.

A equipe usou cromatografia líquida com espectrometria de massas, técnica que separa e identifica moléculas, além de espectroscopia Raman e microscopia eletrônica. Dentro das células apareceram ferro, nitrogênio e carbono, elementos do heme, ao lado da hausmannita, um óxido de manganês. Para os autores, esse mineral ajudou a manter as células estáveis ao longo do tempo.

O comunicado da Curtin acrescenta que o osso guardou também aminoácidos do colágeno. A hipótese da equipe é que o dinossauro foi soterrado depressa, num ambiente com pouco oxigênio e muitos micróbios, o que freou a decomposição.

O artigo reúne 30 autores de instituições da Austrália, do Japão, dos Estados Unidos, da Alemanha e do Brasil. Do lado brasileiro assinam Renan Bantim e Antônio Saraiva, da URCA, e Juliana Sayão e Alexander Kellner, do Museu Nacional. O museu pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das universidades federais do país.

O próprio Aratasaurus tem história. A espécie foi descrita em 10 de julho de 2020 por uma equipe liderada por Juliana Sayão. O nome junta palavras do tupi e do grego e quer dizer “lagarto nascido do fogo”.

O nome da espécie, museunacionali, homenageia o Museu Nacional. O fóssil estava emprestado à instituição para preparação e escapou do incêndio de 2 de setembro de 2018.

Era um terópode, grupo de dinossauros bípedes que inclui o tiranossauro. Pela descrição de 2020, media cerca de 3,12 metros, pesava em torno de 34 kg e tinha pelo menos quatro anos ao morrer, ainda em fase de crescimento. Dele restam partes do fêmur, da tíbia e do pé da perna direita.

As peças vieram da Mina Pedra Branca, uma mina de gesso a cerca de 5,2 km de Santana do Cariri, no sul do Ceará. A mina é uma das principais fontes de fósseis da Bacia do Araripe, e o Aratasaurus foi o primeiro celurossauro basal, um ramo antigo dos terópodes, registrado na bacia.

Em junho, a URCA divulgou outro trabalho com Grice, Kellner e Bantim, sobre bactérias que “blindaram” os tecidos moles de um pterossauro do Araripe de 113 milhões de anos. Para alunas e professoras da rede estadual que querem seguir na ciência, o programa Futuras Cientistas recebe inscrições até 6 de novembro.

O fóssil, registrado como MPSC R 2089, pertence ao acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, mantido pela URCA em Santana do Cariri.

#Aratasaurus#SantanaDoCariri#URCA#MuseuNacional#Paleontologia

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