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Brasil tem cerca de 80 meteoritos catalogados desde o Bendegó, achado no sertão da Bahia
Entre 2010 e 2020, nove quedas foram recuperadas no país, e o projeto que define o dono da pedra espacial está pronto para o Plenário da Câmara.

O Brasil tem cerca de 80 meteoritos catalogados desde o Bendegó, de 1784, segundo boletim da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O levantamento saiu em 2022 no Boletim Paranaense de Geociências. Quem acha uma pedra suspeita pode fazer testes simples em casa antes de procurar um museu.
O número é pequeno para um país do tamanho do Brasil, e os autores do levantamento atribuem isso à pouca difusão da meteorítica, a ciência dessas rochas. A busca, porém, cresceu. Entre 2010 e 2020, nove quedas foram recuperadas no país, depois de 19 anos sem nenhuma, segundo o Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Um meteorito só é reconhecido oficialmente depois de caracterizado por cientistas e registrado no Meteoritical Bulletin, o catálogo da Meteoritical Society, entidade científica internacional. A regra foi lembrada pelo geólogo Álvaro Crósta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em audiência pública na Câmara dos Deputados em 1º de junho de 2022.
5.360 kg
foi o peso do Bendegó medido em 1888 na estação ferroviária de Salvador, antes de embarcar para o Rio
Fonte: Serviço Geológico do Brasil, 2013
Como identificar um meteorito em casa
Um meteorito costuma ter crosta de fusão, uma película fina, preta e fosca formada pela queima na atmosfera, segundo material didático do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Outra pista são os regmaglitos, marcas parecidas com dedadas em massa de modelar, descritas no material escrito pela curadora de meteoritos do Museu Nacional, Maria Elizabeth Zucolotto.
Os meteoritos se dividem em três grupos. Os rochosos, ou aerólitos, são feitos basicamente de silicatos. Os metálicos, ou sideritos, são uma liga de ferro e níquel. Os siderólitos misturam as duas partes. Cada grupo deixa pistas diferentes:
- Crosta de fusãoCasca escura e fosca, que contrasta com o interior mais claro
- RegmaglitosDepressões rasas, como marcas de dedo, mais visíveis nos metálicos
- ÍmãA grande maioria é atraída por ímã, embora a pedra não seja um ímã
- PesoOs metálicos são cerca de três vezes mais densos que uma rocha comum; os rochosos, só um pouco mais
- InteriorLixado num canto, o rochoso mostra pintinhas de metal cor de aço, com manchas de ferrugem em volta
- Metálico por dentroAço sólido, parecido com o de um martelo
Há exceções. Os acondritos, um tipo raro de meteorito rochoso, só têm a crosta de fusão e os regmaglitos. Eles praticamente só são recuperados logo depois de uma queda, segundo o mesmo material do SGB.
Na dúvida, o teste mais simples é o do ímã: amarre um ímã num barbante e aproxime da pedra. Se não houver nenhuma atração, a chance de ser meteorito é pequena, porque a maior parte dos meteoritos contém ferro e níquel.
Se a pedra passar nesses testes, o passo seguinte é registrar o lugar exato do achado, sem lavar nem cortar a peça. Depois, ela deve ser levada a uma instituição de pesquisa, como o Museu Nacional da UFRJ ou um departamento de geologia de universidade pública.
- Fotografe a pedra onde ela está, com um objeto ao lado para dar a escala, como uma moeda ou uma caneta.
- Anote a localização pelo GPS do celular, a data e, se você viu a queda, a hora e a direção do clarão.
- Não lave, não lixe a peça inteira, não aqueça e não quebre. Guarde em saco limpo, em lugar seco.
- Faça o teste do ímã e compare a pedra com os sinais da lista acima.
- Procure o Museu Nacional ou o departamento de geologia de uma universidade pública perto de você e leve as fotos e as anotações.
O Brasil tem gente preparada para essa análise. O meteorito Tiros, que caiu em Minas Gerais em 2020, foi estudado pelo Museu Nacional. O Augusto Pestana, do Rio Grande do Sul, foi estudado em 2022 por pesquisadores da Unicamp e da Universidade de São Paulo (USP), segundo a apresentação de Crósta na Câmara.
“O Brasil conta com instituições científicas plenamente capacitadas para analisar, caracterizar e desenvolver estudos científicos aprofundados em meteoritos”, escreveu Crósta na apresentação levada à Comissão de Minas e Energia em 2022.
Para escolas, o tema rende aula prática. O SGB publica material gratuito sobre meteoritos para professores no portal SGB Educa. O Museu Nacional recebe grupos com agendamento nas exposições que mantém abertas durante a reconstrução do palácio.
Do Bendegó ao projeto de lei
O Bendegó, achado em 1784 no sertão de Monte Santo, na Bahia, é o maior meteorito brasileiro. Pesou 5.360 kg e mede 220 por 145 por 58 centímetros, segundo o Serviço Geológico do Brasil. Durante muitos anos, foi o maior meteorito em exposição num museu no mundo.
A viagem até o Rio de Janeiro virou capítulo da história da ciência no país. Puxado por juntas de bois numa carreta feita para ele, o Bendegó percorreu 113 quilômetros de sertão em 126 dias até a ferrovia. Depois, seguiu de trem até Salvador e embarcou em 1º de junho de 1888 no vapor Arlindo.
Chegou ao Rio no dia 15, foi recebido pela princesa Isabel e entrou no Museu Nacional em 27 de novembro de 1888.
O meteorito resistiu ao incêndio que destruiu o palácio do Museu Nacional em setembro de 2018 e continua no mesmo prédio, na Quinta da Boa Vista. Ele pertence a um subgrupo raro de meteoritos metálicos, com só 12 exemplares conhecidos no mundo até 2013, segundo o SGB.
Outros meteoritos brasileiros têm fama internacional. O Angra dos Reis, que caiu no litoral fluminense em 1869, deu nome a um grupo raro de meteoritos rochosos, os angritos. No Santa Catarina, achado na ilha de São Francisco do Sul, cientistas descobriram a tetrataenita, uma liga de ferro e níquel em partes iguais que se tornou referência em pesquisas.
| Meteorito | Estado | Ano | O que tem de especial |
|---|---|---|---|
| Bendegó | BA | 1784 (achado) | Maior do Brasil, com 5.360 kg |
| Macau | RN | 1836 (queda) | Chuva de pedras de poucos gramas a 40 kg |
| Angra dos Reis | RJ | 1869 (queda) | Deu nome ao grupo dos angritos |
| Santa Bárbara | RS | 1873 (queda) | Caiu perto de São Leopoldo, à luz do dia |
| Santa Catarina | SC | 1875 (achado) | Ao menos 25 toneladas vendidas como minério de níquel |
| Itapicuru-Mirim | MA | 1879 (queda) | Caiu às 11h, com céu limpo |
| Campos Sales | CE | 1991 (queda) | Última queda recuperada antes de 19 anos sem nenhuma |
| Campinorte | GO | 1992 (achado) | Terceiro maior do país, comprado pela UFRJ por R$ 350 mil |
Fonte: Serviço Geológico do Brasil, 2013; apresentação do Museu Nacional na Câmara dos Deputados, 2022
O Santa Catarina teria sido o maior de todos. O homem que o encontrou achou que era uma mina de níquel e exportou ao menos 25 toneladas para a Inglaterra até a jazida acabar, segundo o SGB.
Já o Campinorte foi comprado pela UFRJ com recursos da Faperj, a fundação de amparo à pesquisa do Rio de Janeiro, segundo a curadora do Museu Nacional.
As quedas recentes vão do sertão de Pernambuco à Serra Pelada, no Pará. Das nove recuperadas entre 2010 e 2020, três foram em Pernambuco. A lista foi apresentada pela curadora Maria Elizabeth Zucolotto à Comissão de Minas e Energia da Câmara, em 1º de junho de 2022.
| Ano | Meteorito | Estado |
|---|---|---|
| 2010 | Varre-Sai | RJ |
| 2013 | Vicência | PE |
| 2013 | Parauapebas | PA |
| 2015 | Porangaba | SP |
| 2017 | Três Irmãos | BA |
| 2017 | Serra Pelada | PA |
| 2019 | Socorro | PE |
| 2020 | Santa Filomena | PE |
| 2020 | Tiros | MG |
Fonte: apresentação do Museu Nacional na Câmara dos Deputados, 1º de junho de 2022
Por região, o Nordeste reúne quatro dessas quedas, o Sudeste três e o Norte duas. Sul e Centro-Oeste não aparecem na lista recente, embora o Campinorte, um dos maiores meteoritos do país, tenha sido achado em Goiás.
A mais conhecida é a de Santa Filomena, no sertão de Pernambuco, em 19 de agosto de 2020. Moradores recolheram as pedras, e a notícia atraiu pesquisadores e compradores em plena pandemia. Segundo Zucolotto, o caso deu origem às propostas de lei sobre meteoritos que estão na Câmara.
Um ano antes, outro meteorito havia caído a cerca de 10 quilômetros dali, em Socorro, e foi vendido a um comerciante dos Estados Unidos. A caracterização científica foi feita fora do país, como lembrou Crósta na mesma audiência.
Hoje, o Brasil não tem lei específica sobre meteoritos. Pelo artigo 1.263 do Código Civil, a pedra que cai do céu é tratada como coisa sem dono, que fica com quem a recolhe. A interpretação é do Grupo de Trabalho sobre Meteoritos, formado por cientistas, que apresentou proposta à Câmara dos Deputados em junho de 2022.
O artigo diz que “quem se assenhorear de coisa sem dono para logo lhe adquire a propriedade, não sendo essa ocupação defesa por lei”. Na prática, os meteoritos podem ser livremente apropriados por particulares, segundo o grupo.
Isso pode mudar com o Projeto de Lei 4.471/2020, apresentado em 3 de setembro de 2020 pelo deputado Alex Santana (PDT-BA). A ementa diz que o texto “dispõe sobre a propriedade de meteorito que atinge o solo brasileiro”.
A Comissão de Minas e Energia aprovou um substitutivo em 9 de novembro de 2022. A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou o parecer do relator, Cezinha de Madureira, em 8 de abril de 2025.
Em 16 de junho de 2026, o Plenário aprovou o regime de urgência, a pedido do deputado Carlos Veras. Desde então, o projeto consta como pronto para pauta, segundo a Câmara. Se for aprovado pelos deputados, segue para o Senado e, depois, para sanção.
O texto que aguarda votação é o substitutivo do relator na Comissão de Minas e Energia, deputado Jesus Sérgio (PDT-AC), mantido pela CCJ. Ele trata o meteorito como bem cultural, de importância científica e histórica, e não como recurso mineral. Os pontos principais são:
- DonoO meteorito pertence ao dono do terreno onde caiu; se outra pessoa o recolher sem ter sido contratada para isso, a propriedade é dividida meio a meio entre os dois
- Ruas e praçasEm áreas de uso comum do povo, fica com quem recolhe a pedra, como prevê o Código Civil
- RegistroEm até 180 dias após a coleta, numa instituição científica indicada pelo Poder Executivo, que emite o Certificado Nacional de Registro de Meteorito
- Parte para a ciência20% da massa, no mínimo 30 gramas e no máximo 1 quilo, cedidos de graça à instituição; quem perder o prazo pode ter de ceder até 50%
- Saída do paísSó com a comprovação do registro
“Esta lei mudará a história da ciência planetária no Brasil”, escreveu Rodrigo Vesule Fernandes, do grupo de trabalho dos cientistas, na apresentação levada à audiência de 2022. O texto final, porém, depende do que o Plenário aprovar.
Outros países já têm regras. Na Argentina, meteoritos são patrimônio cultural e não podem ser exportados. No Canadá, só saem do país com autorização do serviço de fronteira, que consulta um especialista antes de liberar, segundo a apresentação de Crósta na Câmara.
- 1784Bendegó é achado em Monte Santo, no sertão da Bahia
- 1836Chuva de meteoritos atinge Macau, no Rio Grande do Norte
- 1869Cai o Angra dos Reis, que dá nome aos angritos
- 27 de novembro de 1888Bendegó chega ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro
- 1991Queda em Campos Sales (CE) abre jejum de 19 anos sem quedas recuperadas
- 2010Queda em Varre-Sai (RJ) encerra o jejum
- 2020Quedas em Santa Filomena (PE) e Tiros (MG)
- 16 de junho de 2026Câmara aprova urgência para o projeto que define o dono do meteorito
Os meteoritos que vieram de Marte
Meteoritos de Marte são rochas que se formaram no planeta vermelho, foram lançadas ao espaço e caíram na Terra. Em 2013, a Agência Espacial dos Estados Unidos (NASA) contava cerca de 110 deles no grupo SNC, que reúne a maioria. A sigla vem de três meteoritos-modelo: Shergotty, Nakhla e Chassigny.
A prova da origem veio de um meteorito achado na Antártida, o EET 79001. Pequenas porções de vidro dentro dessa pedra guardam gases nobres e nitrogênio nas mesmas proporções da atmosfera de Marte. A comparação foi feita com as medições das sondas Viking, segundo nota técnica do Centro Espacial Johnson, da NASA, de 2018.
Desertos quentes e frios guardam milhares de meteoritos, segundo o SGB, e muitos dos marcianos vêm deles.
No Saara foi achado em 2011 o NWA 7034, apelidado de “Black Beauty” (beleza negra), uma pedra de cerca de 320 gramas. Ela se formou há 2,1 bilhões de anos e tem dez vezes mais água que outros meteoritos marcianos, segundo a NASA.
A composição dela combina com a das rochas da superfície de Marte estudadas a distância pelos jipes-robôs e satélites da agência.
No céu brasileiro, há um calendário de chuvas de meteoros e eclipses. Há também uma explicação de como um satélite da NASA pode cair e por que lixo espacial não é meteorito. As imagens do jipe-robô Curiosity mostram a paisagem marciana de perto.
O Bendegó fica no palácio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Durante a reconstrução, o museu mantém exposições temporárias gratuitas, e grupos agendam visita pelo e-mail [email protected].
Como citar: Ouviram (30 out. 2026). «Brasil tem cerca de 80 meteoritos catalogados desde o Bendegó, achado no sertão da Bahia». ouviram.com.br/brasil/meteorito-no-brasil-como-identificar-de-quem-e-meteoritos-de-marte
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
Meteoro, meteorito e asteroide são a mesma coisa?
Não. Meteoro é o risco de luz no céu, a popular estrela cadente. Meteorito é o pedaço de rocha ou metal que sobrevive à queima e chega ao chão. Asteroide é o corpo rochoso que gira em torno do Sol, de onde vem a maior parte dos meteoritos.
Qual a diferença entre queda e achado de meteorito?
Segundo material do Serviço Geológico do Brasil, queda é o meteorito com data conhecida, visto cair ou recolhido logo depois. Achado é o meteorito encontrado no campo sem que ninguém tenha testemunhado a chegada, como o Bendegó, na Bahia.
Como os meteoritos recebem nome?
Cada meteorito recebe o nome da cidade ou da localidade mais próxima de onde foi recuperado, segundo o Serviço Geológico do Brasil. Por isso existem meteoritos chamados Macau, Angra dos Reis, Campos Sales e Santa Filomena.
Quantos meteoritos são recuperados por ano no mundo?
Cientistas recuperam de 4 a 8 meteoritos por ano no mundo logo após a queda, segundo material do Serviço Geológico do Brasil. Como a maior parte cai no mar, em matas ou em áreas de difícil acesso, a maioria nunca é encontrada.
Por que tantos meteoritos são achados no Saara e na Antártida?
Segundo o Serviço Geológico do Brasil, desertos quentes, como o Saara, e frios, como a Antártida, preservam os meteoritos por milênios, e milhares deles são achados nessas regiões. Uma rocha escura também se destaca com facilidade na areia ou no gelo.
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1. Qual é o maior meteorito já encontrado no Brasil?
O Bendegó, achado em 1784 em Monte Santo (BA), pesou 5.360 kg em 1888, segundo o Serviço Geológico do Brasil. O Santa Catarina pode ter sido maior, mas foi vendido como minério.
2. Que grupo de meteoritos leva o nome de uma cidade brasileira?
Os angritos, grupo raro de meteoritos rochosos, têm o nome do meteorito Angra dos Reis, que caiu no litoral fluminense em 1869, segundo o Serviço Geológico do Brasil.
3. Como os cientistas confirmaram que certos meteoritos vieram de Marte?
O meteorito EET 79001 guarda gases em proporções idênticas às da atmosfera de Marte medida pelas sondas Viking, segundo nota técnica da NASA de 2018.
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