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Doença de Zé Felipe, síndrome do piriforme causa dor na nádega e tem tratamento pelo SUS

Em estudo do Hospital Universitário da UFJF com 34 pacientes, 94% tiveram resultado bom ou excelente só com remédios e fisioterapia, sem cirurgia.

Tapete de exercício rosa na grama de um parque ensolarado, com garrafa de água, toalha e rolo de massagem
Tapete, toalha e rolo de massagem na grama: alongamento e fisioterapia são a base do tratamento da síndrome do piriforme.Foto: Ouviram

A síndrome do piriforme explicou 5,4% das dores ciáticas num estudo do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF), em Minas Gerais. A compressão do nervo ciático por um músculo da nádega melhora, na maioria dos casos, com remédios e fisioterapia, sem cirurgia, segundo os autores.

A doença ganhou atenção nesta semana. O cantor Zé Felipe contou nas redes sociais, na quarta-feira (28), que recebeu esse diagnóstico depois de dias de dor forte nos glúteos. Ele disse que, antes, acreditava ter um problema no nervo ciático, e que a dor vinha do lado do nervo, na nádega.

Os autores do estudo do HU-UFJF chamam a doença de “pouco entendida e conhecida, por isso, subdiagnosticada”, e é aí que mora o risco para quem sente dor na nádega. A mesma dor pode vir da coluna, como na hérnia de disco, ou desse músculo. Cada causa tem exame e tratamento próprios, e o caminho pelo Sistema Único de Saúde (SUS) começa na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro.

  • O que éIrritação ou compressão do nervo ciático pelo músculo piriforme, na nádega
  • Sintoma principalDor funda na nádega e atrás da coxa, que piora sentado
  • Quem tem maisAdultos de 30 a 50 anos, sobretudo mulheres
  • DiagnósticoExame físico com manobras; imagem para descartar a coluna
  • TratamentoRemédios, fisioterapia e alongamento; cirurgia só se nada funcionar
  • No SUSComeça na Unidade Básica de Saúde
  • AfastamentoAcima de 15 dias seguidos, o pedido vai ao INSS

A síndrome do piriforme é uma irritação do nervo ciático causada pelo músculo piriforme, que fica no fundo da nádega, segundo o estudo publicado em 2022 na HU Revista, do Hospital Universitário da UFJF. O músculo nasce no osso sacro, na base da coluna, e vai até o alto do fêmur. Sua função é girar a perna para fora.

O nervo ciático é o mais grosso do corpo e passa colado a esse músculo a caminho da perna. Quando o piriforme fica tenso, contraído ou inflamado, aperta o nervo. O resultado é uma dor que desce pela parte de trás da coxa e lembra muito a dor ciática que vem da coluna.

A anatomia de cada pessoa também pesa. Na maioria, o nervo passa por baixo do músculo. Em 11,54% das pessoas, parte do nervo atravessa o próprio piriforme, um arranjo que os estudos citados pelo HU-UFJF apontam como o que mais favorece a síndrome.

5,4%

dos casos de dor ciática atendidos num ambulatório de ortopedia vinham do músculo piriforme

Fonte: HU-UFJF, HU Revista, 2022

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O número saiu de um levantamento grande. Os médicos revisaram os registros de 21.130 pacientes atendidos de janeiro de 2010 a dezembro de 2018 no ambulatório de ortopedia do hospital universitário e num serviço conveniado. Desses, 720 tinham dor ciática, ou 3,4% de todas as consultas, e 39 tiveram a suspeita de síndrome do piriforme.

A literatura revisada pelos autores calcula que a síndrome responde por 5% a 6% dos casos de ciática. Não existem dados precisos sobre quantos brasileiros têm a doença, e o próprio estudo diz isso.

A condição é conhecida há quase um século. O médico Yeoman ligou o piriforme à dor ciática em 1928, e o nome síndrome do piriforme veio com Robinson, em 1947. Ao longo do tempo, ela ganhou apelidos como “ciática da carteira” e “ciática do corredor”, que dão pistas das causas.

As causas listadas pelo estudo do HU-UFJF vão de pancadas a hábitos do dia a dia. Corredores formam um grupo à parte: 7 dos 34 pacientes acompanhados (20,5%) eram atletas de corrida, embora nenhum de alto rendimento.

Entre os fatores descritos pelos autores estão:

  • pancadas e quedas sobre a nádega
  • esforço repetido, comum em quem corre
  • músculos encurtados do quadril e vícios de postura
  • diferença de comprimento entre as pernas, que força um lado
  • muitas horas sentado e compressão externa sobre a nádega
  • inflamação de articulações vizinhas, como a sacroilíaca

No caso relatado por Zé Felipe, o próprio cantor associou a dor a movimentos repetidos durante os exercícios físicos. Ele contou que segue o tratamento com remédios.

A doença aparece mais entre os 30 e os 50 anos e em mulheres, segundo a literatura reunida pelo HU-UFJF. No estudo de Juiz de Fora, a idade média foi de 49 anos, e quase metade dos pacientes (47%) tinha de 45 a 54 anos. O mais jovem tinha 25 anos e o mais velho, 74.

Sintomas, sinais de alerta e diagnóstico

O sintoma típico da síndrome do piriforme é uma dor funda na nádega e na parte de trás da coxa, segundo o estudo do HU-UFJF. A dor vai de leve a moderada e costuma surgir depois de esforço longo. Muitos pacientes não suportam ficar sentados por mais de 20 a 30 minutos e evitam sentar sobre o lado afetado.

No grupo acompanhado em Juiz de Fora, a dor ficou restrita à nádega e à parte de trás da coxa em 30 dos 34 pacientes (88,2%). Em quatro (11,7%), ela descia até a lateral da perna e o peito do pé. Dez pacientes (29,4%) contaram sentir a perna “fraca” ao andar, sobretudo nos primeiros passos e depois de muito tempo sentados.

Os pacientes também descrevem formigamento, queimação ou fisgada. A dor costuma ir e voltar e, em boa parte dos casos, dura mais de três meses. No estudo, 73,5% dos pacientes já conviviam com a queixa havia mais de três meses quando receberam o diagnóstico, em média 3,5 meses.

Alguns sinais não combinam com a síndrome do piriforme e podem indicar compressão grave dos nervos dentro da coluna. O protocolo de dor lombar da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba manda levar à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), sem esperar consulta marcada, quem tem:

  • dormência na região genital ou entre as pernas, na área que encostaria num selim
  • perda do controle da urina ou das fezes
  • impotência sexual

A perda de força que piora aos poucos na perna leva ao especialista, e a perda súbita, direto à UPA, diz o mesmo protocolo, revisado em abril de 2025. Em emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atende pelo 192.

Separar a síndrome do piriforme da hérnia de disco é o passo seguinte. Ciática não é uma doença, e sim o nome da dor que corre pelo trajeto do nervo ciático, explica o estudo do HU-UFJF. Ela pode ter várias origens.

A mais conhecida é a hérnia de disco na coluna lombar, que aperta a raiz do nervo ainda dentro da coluna. Na síndrome do piriforme, o aperto acontece mais abaixo, na nádega.

A pista principal é a dor nas costas. Na síndrome do piriforme, a dor fica na nádega e na coxa e, na maioria das vezes, não vem acompanhada de dor lombar. E a ressonância magnética da coluna, exame que mostra a hérnia, não traz alteração que explique o quadro.

Ponto de comparaçãoSíndrome do piriformeHérnia de disco lombar
Onde o nervo é apertadoNa nádega, pelo músculoNa coluna, pelo disco
Dor nas costasEm geral, ausentePode vir junto
Exame que mais ajudaExame físico com manobrasRessonância da coluna
Ressonância da colunaSem alteração que explique a dorMostra o disco que aperta o nervo

Fonte: estudo do HU-UFJF publicado na HU Revista, 2022

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Os números ajudam a entender a confusão. Segundo a literatura citada pelos autores, a hérnia de disco com sintomas atinge 2% da população ao longo da vida. Nos Estados Unidos, a ciática de qualquer origem chega a cerca de 10% da população. Por ser menos conhecida, a síndrome do piriforme acaba fora da lista de suspeitas.

O diagnóstico da síndrome do piriforme é clínico e de exclusão: o médico examina o paciente e descarta antes as causas da coluna, segundo o estudo do HU-UFJF. Não existe um exame de sangue ou de imagem que, sozinho, confirme a doença, e nenhuma manobra do exame físico basta por si só.

No consultório, o médico aperta a nádega entre a base da coluna e o quadril para procurar o ponto de dor. Em alguns casos, dá para sentir o músculo tenso, descrito pelos autores como uma massa em forma de salsicha. Depois, ele faz testes que esticam ou contraem o piriforme para ver se a dor aparece.

Entre as manobras mais usadas está a de Freiberg, que gira a perna para dentro com o paciente deitado. Outra é a Fair, sigla em inglês para flexão, adução e rotação interna do quadril. O teste de Lasègue, em que se levanta a perna esticada, também pode dar positivo. No estudo, quatro ou mais testes positivos, entre sete, indicavam a síndrome.

Os exames de imagem servem para descartar outras causas. No HU-UFJF, todos os pacientes fizeram radiografia da bacia e ressonância magnética da coluna lombar. A ressonância da pelve e a eletroneuromiografia, exame que mede a condução elétrica dos nervos, ficaram para os casos mais duvidosos, por causa do custo.

Remédio, fisioterapia e o caminho no SUS

O tratamento da síndrome do piriforme começa sem cirurgia, com remédios para dor e um programa de fisioterapia, e funciona na maioria dos casos, segundo o estudo do HU-UFJF. Dos 34 pacientes acompanhados por 6 a 12 meses em Juiz de Fora, 32 tiveram resultado excelente ou bom.

Tratamento sem cirurgia funcionou para 32 de 34 pacientes (número de pacientes por resultado)
Excelente, sem sintomas23
Bom, melhora parcial satisfatória9
Razoável, melhora insuficiente2

Fonte: HU-UFJF, HU Revista, 2022

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Os médicos usaram anti-inflamatórios, analgésicos comuns, relaxantes musculares e remédios chamados antineuríticos. Os remédios foram suspensos ou mantidos conforme a resposta e a tolerância de cada paciente. Quem decide o remédio e a dose é o médico, e não vale tomar por conta própria o que funcionou para outra pessoa.

A fisioterapia foi o centro do tratamento. As sessões combinavam massagem, liberação dos tecidos da nádega, alongamentos suaves e exercícios de força sem movimento, chamados isométricos. Cada sessão começava com gelo no local e ultrassom terapêutico, para relaxar o músculo.

O alongamento não se limitava ao piriforme. Os fisioterapeutas também trabalharam os músculos de trás da coxa, os da virilha, os abdominais e os que ligam a coluna ao quadril. A ideia era corrigir encurtamentos que sobrecarregam a pelve.

O resultado leva semanas, e é bom saber disso antes de começar. Segundo os autores, a melhora ficou clara depois de 20 sessões, em cerca de 40 dias. Depois disso, o tratamento seguiu até completar pelo menos 30 sessões, com intervalos cada vez maiores.

O paciente também recebeu tarefas para casa: cuidados com a postura, alongamentos que dá para fazer sozinho e a pausa no esporte ou no hábito que provocava a dor. Para quem passa o dia sentado, uma medida simples é não sentar sobre a carteira no bolso de trás, um tipo de compressão externa que os autores citam entre as causas.

“O tratamento conservador apresenta resultados satisfatórios na maioria dos casos”

Autores do estudo do Hospital Universitário da UFJF, HU Revista, junho de 2022

Alguns médicos aplicam infiltração, uma injeção de corticoide ou de toxina botulínica no músculo. A equipe do HU-UFJF não usou o recurso em nenhum paciente, por causa da profundidade do piriforme e das variações da anatomia. Os autores citam um estudo em que a injeção de anestésico guiada por ressonância deu alívio só temporário em 64,5% dos casos.

A cirurgia, que libera o nervo preso, fica para quando todo o resto falha. No estudo de Juiz de Fora, os dois pacientes sem melhora suficiente receberam essa indicação, mas preferiram não operar, mesmo com sintomas após 12 meses de acompanhamento. Os dois tinham histórico de trauma.

O tratamento da síndrome do piriforme pelo SUS começa na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais perto de casa. Lá, o médico de família examina, pede os primeiros exames e receita os remédios. Se for preciso, encaminha para ortopedia e fisioterapia pelo sistema de regulação do município, que organiza a fila.

  1. Vá à UBS do seu bairro com documento com foto e o Cartão SUS ou o CPF.
  2. Conte onde dói, há quanto tempo, se piora sentado e se há dor nas costas. Leve exames e receitas antigos.
  3. Siga o tratamento inicial e volte à consulta de retorno, mesmo que a dor melhore.
  4. Se não houver melhora, peça o encaminhamento para ortopedia e fisioterapia e acompanhe a fila na própria UBS.
  5. Pergunte se a sua cidade oferece acupuntura ou outras práticas integrativas.

O momento de ir ao especialista também segue regras. O protocolo de Curitiba, por exemplo, manda encaminhar ao especialista quem tem dor lombar com ciática e não melhora em seis semanas. A condição é que o tratamento tenha sido feito em conjunto pelo médico e pelo fisioterapeuta. Cada município tem o seu fluxo, e a UBS informa qual vale na sua cidade.

Dor que dura mais de três meses é um dos critérios de entrada no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Dor Crônica. O Ministério da Saúde aprovou o documento em agosto de 2024. Os guias das secretarias da Saúde de Santa Catarina e da Bahia listam a gabapentina, remédio usado na dor de nervo, entre os medicamentos do protocolo.

A acupuntura é outra porta. O SUS oferece 29 práticas integrativas e complementares, entre elas a “Medicina Tradicional Chinesa – acupuntura”, segundo o Ministério da Saúde, e na maioria dos casos o atendimento pode ser buscado direto na UBS. A oferta muda de cidade para cidade, e a acupuntura pode exigir encaminhamento de um profissional da equipe.

A técnica já foi estudada no país para esse problema. Segundo o levantamento do HU-UFJF, a maior série de casos publicada por autores brasileiros nas bases científicas trata nove corredores com síndrome do piriforme usando acupuntura e massagem.

Afastamento e auxílio do INSS

Quem é segurado do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e fica mais de 15 dias seguidos sem poder trabalhar por causa da síndrome do piriforme pode pedir auxílio. O benefício se chama auxílio por incapacidade temporária, o antigo auxílio-doença. Pela Lei 8.213/1991, os primeiros 15 dias de afastamento do empregado são pagos pela empresa.

  • Carência12 contribuições mensais, em regra
  • Quando pedirIncapacidade por mais de 15 dias seguidos
  • Onde pedirSite ou aplicativo Meu INSS, com a conta gov.br
  • Sem perícia presencialPelo Atestmed, com análise do atestado por perito médico federal
  • Prazo pelo AtestmedAté 90 dias, com pedido de prorrogação se for preciso

O atestado precisa trazer a identificação do segurado, a data e o código da doença na Classificação Internacional de Doenças (CID) ou a descrição dela, segundo o INSS. Também deve informar o tempo estimado de repouso e ter a assinatura e a identificação do profissional. O documento deve estar legível e sem rasuras, e laudos e exames podem ir junto.

Para entrar no sistema, o passo a passo de acesso ao Meu INSS com a senha gov.br mostra como criar a conta. Depois do pedido, o andamento pode ser acompanhado no próprio Meu INSS, e o guia sobre o status do pedido no Meu INSS explica cada etapa.

Quem tiver perícia presencial marcada e não puder comparecer pode remarcar uma única vez, pela Central 135 ou pelo Meu INSS, em até 7 dias depois da data agendada, segundo o INSS.

Como citar: Ouviram (30 out. 2026). «Doença de Zé Felipe, síndrome do piriforme causa dor na nádega e tem tratamento pelo SUS». ouviram.com.br/brasil/sindrome-do-piriforme-doenca-ze-felipe-sintomas-tratamento-sus

Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.

Perguntas frequentes

Síndrome do piriforme dá dor nas costas?

A dor da síndrome fica na nádega e na parte de trás da coxa e, na maioria das vezes, vem sem dor lombar, segundo a revisão do estudo do Hospital Universitário da UFJF. Por isso, os autores consideram obrigatório examinar a coluna lombar por imagem antes do diagnóstico.

Síndrome do piriforme pode dar nos dois lados?

Pode. No estudo do HU-UFJF, 2 dos 34 pacientes (5,8%) tinham sintomas nos dois lados, e os dois eram atletas corredores.

Carteira no bolso de trás causa dor no glúteo?

A compressão mecânica externa está entre as causas descritas pelos autores do estudo do HU-UFJF, e um dos apelidos da condição é “ciática da carteira”.

Mulher tem mais síndrome do piriforme?

A literatura revisada pelo HU-UFJF aponta mais casos em mulheres de 30 a 50 anos, o que um estudo citado pelos autores liga à biomecânica da pelve feminina. No próprio estudo, 18 dos 34 pacientes (52,9%) eram mulheres.

Quem tem síndrome do piriforme pode correr?

Durante o tratamento, o protocolo do estudo do HU-UFJF incluiu a interrupção do esporte que provocava a dor. A volta deve ser combinada com o médico ou o fisioterapeuta. No estudo, 20,5% dos pacientes eram corredores.

#Saúde#ZéFelipe#SUS#INSS#HUUFJF

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  1. 1. Onde fica o músculo piriforme?

  2. 2. Quantos dos 34 pacientes do estudo do HU-UFJF tiveram resultado excelente sem cirurgia?

  3. 3. A partir de quantos dias de afastamento o INSS paga o auxílio por incapacidade temporária?

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