Meio ambienteGuia
Peixe-leão se espalhou da costa amazônica ao sul da Bahia em seis anos
Norma do Ibama em vigor desde abril de 2026 dispensa autorização para pescar e abater a espécie fora de áreas protegidas e permite incentivar a pesca no defeso.

O peixe-leão, espécie venenosa do oceano Indo-Pacífico, já foi registrado da costa amazônica ao sul da Bahia. Desde abril de 2026, qualquer pescador pode capturá-lo e abatê-lo sem autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), fora das áreas protegidas.
A liberação está na Instrução Normativa Ibama 10/2026, que trata o peixe-leão como espécie nociva e manda abater todo exemplar capturado. O motivo é o apetite do invasor. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ele consegue comer 20 peixes em meia hora e pode colocar 30 mil ovos.
Para quem vai à praia, mergulha ou pesca no Nordeste, a orientação é simples. Não toque no peixe, porque os espinhos injetam veneno. Se for ferido, use água quente no local e procure atendimento. Se avistar ou pescar um, avise o ICMBio da sua região.
- Nome científicoPterois volitans, do gênero Pterois
- OrigemOceano Indo-Pacífico; chegou ao Brasil vindo do Caribe
- TamanhoAté 47 cm, segundo o ICMBio
- Perigo18 espinhos com veneno
- Onde já foi vistoCosta amazônica, todo o litoral do Nordeste, Fernando de Noronha, Atol das Rocas e sul da Bahia
- PescaLiberada sem autorização fora de unidades de conservação
- AvistouAvise o centro do ICMBio da sua região
18
espinhos do peixe-leão têm glândulas de veneno, que causa dor, náusea e até convulsões
Fonte: ICMBio, material de orientação de 2022
O veneno dos 18 espinhos
O peixe-leão é venenoso, mas o veneno não é fatal para pessoas saudáveis, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os 18 espinhos das nadadeiras injetam uma toxina que causa dor, náusea, bolhas e, nos casos mais fortes, convulsões, diz o material de orientação do instituto.
As glândulas de veneno ficam em dois sulcos de cada espinho, explica a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), agência do governo dos Estados Unidos. Pela contagem da agência, são 13 espinhos na nadadeira dorsal e 3 na anal; os outros 2 ficam nas nadadeiras pélvicas.
O ICMBio pede que ninguém pegue nem toque no peixe-leão durante o mergulho. O instituto alerta que a toxina pode levar até 90 minutos para fazer efeito, por isso a dor pode demorar a aparecer.
Se você for ferido por um peixe-leão, siga a ordem indicada pelo ICMBio:
- Saia da água ou interrompa o mergulho e suba à superfície, mesmo sem sentir dor.
- Coloque o local atingido em água quente, o que dificulta a ação do veneno.
- Procure atendimento médico o mais rápido possível, numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou pronto-socorro; em caso grave, ligue 192 para o Samu.
- Para tirar dúvidas sobre o envenenamento, ligue para o Disque-Intoxicação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no 0800-722-6001, de graça.
Reconhecer o peixe ajuda a evitar o acidente. O corpo é listrado de branco com faixas em tons de vermelho, laranja e marrom, e as nadadeiras peitorais são longas e abertas como um leque, segundo o ICMBio. O instituto lista 47 cm como tamanho máximo, mas um exemplar de 49 cm foi capturado em 27 de fevereiro de 2025 no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha.
Crianças e adolescentes que mergulham com máscara e snorkel em recifes rasos do Nordeste precisam saber reconhecer o peixe e não tocá-lo. Os registros feitos em 2022 no litoral da região ficaram entre 1 e 16 metros de profundidade, faixa alcançada por quem mergulha em apneia, ou seja, sem cilindro. Vale o mesmo cuidado para quem leva os filhos às piscinas naturais nas férias de verão.
Da costa amazônica ao sul da Bahia
O peixe-leão já tem registros em toda a costa do Nordeste, segundo o Ibama. Na Bahia, havia exemplares em pelo menos 10 municípios, do Litoral Norte ao Extremo Sul, até o início de setembro de 2026, segundo o governo do estado.
Um estudo genético de 2023 também aponta a espécie em recifes profundos da costa amazônica e em Fernando de Noronha. A pesquisa é do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC).
O primeiro exemplar do litoral brasileiro apareceu bem mais ao sul. Mergulhadores viram um peixe-leão adulto, de 25 cm, em 10 de maio de 2014, nos costões de Arraial do Cabo (RJ). O registro foi descrito em estudo liderado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e publicado em 2015. Era um exemplar só, e a análise genética o ligou à população invasora do Caribe.
Em 2020, quatro peixes-leão foram registrados em recifes profundos da costa amazônica e em Fernando de Noronha. Entre março e maio de 2022, pesquisadores contaram 72 avistamentos em 240 km do litoral do Nordeste, segundo estudo liderado pelo Labomar. Os peixes estavam em estuários, bancos de capim-marinho e recifes naturais e artificiais.
58%
dos peixes-leão vistos no Nordeste em 2022 estavam em recifes artificiais e currais de pesca
Fonte: Labomar/UFC, agosto de 2022
O dado ajuda o pescador do Nordeste a saber onde olhar. Mais da metade dos peixes estava em quebra-mares, currais de pesca e marambaias, os recifes artificiais usados como pesqueiros. Os autores concluem que essas estruturas feitas pelo homem são um habitat adequado para a espécie.
O estudo genético de 2023 explica o caminho. Os peixes-leão capturados em 2022 vieram do Caribe por conta própria, nadando já adultos. Os recifes profundos da foz do Amazonas serviram de trampolim para atravessar a pluma de água doce do rio. Os autores estimam que a invasão pode alcançar mais de 3.500 km da costa brasileira.
| Região | Situação até outubro de 2026 | Fonte |
|---|---|---|
| Norte | registros em recifes profundos da costa amazônica desde 2020 | estudo do Labomar/UFC, 2022 |
| Nordeste | registros em todo o litoral, até o sul da Bahia | Ibama e governo da Bahia |
| Ilhas oceânicas | Fernando de Noronha desde 2020; Atol das Rocas com captura registrada pelo ICMBio em 2023 | ICMBio e estudo do Labomar/UFC, 2022 |
| Sudeste | um exemplar em Arraial do Cabo (RJ), em 2014 | estudo da UFF, 2015 |
| Sul | sem registro nos estudos e normas citados | ICMBio pede aviso ao Cepsul |
Fonte: Ibama, ICMBio, governo da Bahia, UFF e UFC, 2015 a 2026.
Em Fernando de Noronha, o controle virou rotina. O ICMBio já retirou mais de mil peixes-leão do arquipélago com mergulhadores autorizados desde o início do manejo. Em 2025, o instituto informou que estudava com universidades regras para incentivar o consumo da carne no arquipélago. Quem vai à ilha e faz mergulho pode ver esse trabalho de perto; o guia de Fernando de Noronha reúne os passeios.
No sul da Bahia, o ICMBio confirmou em agosto de 2026 a presença do peixe-leão na região do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no litoral de Caravelas. Em Porto Seguro, a prefeitura passou a pagar R$ 10 por exemplar entregue à Colônia de Pescadores Z-22, como medida temporária. A colônia recebeu 442 peixes em agosto. Os animais seguem para pesquisa na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
Para os pescadores da região, cada peixe entregue virou renda extra enquanto durar o pagamento, que a prefeitura definiu como temporário. Quem planeja viajar para lá encontra roteiros no guia de Porto Seguro.
O que a norma do Ibama permite
A Instrução Normativa Ibama 10/2026 dispensa autorização do Ibama para pescar, capturar e abater o peixe-leão em todo o litoral brasileiro, segundo o artigo 5º. A norma saiu no Diário Oficial da União em 1º de abril de 2026 e foi republicada com correções em 6 de abril. Ela foi assinada pelo presidente do instituto, Rodrigo Agostinho.
A mesma regra vale para outros dois peixes marinhos invasores listados no anexo: o peixe-sapo (Opsanus beta), vindo do Golfo do México, e o blênio-marrom (Omobranchus sewalli), também do Indo-Pacífico. A lista pode crescer conforme as relações oficiais da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio).
- Quem pode pescarPescadores profissionais, amadores e esportivos, seguindo as regras da sua modalidade (art. 9º)
- Mergulho em apneiaPuçá, recipiente de contenção, arpão, espingarda de mergulho e arbalete (art. 9º, § 1º)
- Mergulho com cilindroArpão proibido, salvo autorização prévia do órgão ambiental (art. 9º, § 2º)
- Áreas protegidasSó com autorização do órgão gestor, também na zona de amortecimento (art. 6º)
- DefesoA pesca do invasor pode ser incentivada mesmo no defeso, com abate (art. 10)
- Depois da capturaAbate obrigatório antes do desembarque (art. 7º)
- VendaPermitida para o peixe abatido; proibida para o peixe vivo (art. 8º)
A regra das áreas protegidas importa no Nordeste, que tem parques, reservas e áreas de proteção ambiental marinhas ao longo do litoral. Em Fernando de Noronha, em Abrolhos ou no Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora, em Porto Seguro, a captura depende de autorização de quem administra a unidade.
“Os exemplares de peixes marinhos considerados exóticos invasores não deverão ser devolvidos vivos ao ambiente natural”
A venda do peixe-leão abatido é permitida. A norma do Ibama autoriza o comércio de produtos e subprodutos do peixe depois do abate, mas a segurança da carne para consumo ainda é estudada por universidades. No manuseio, o risco está nos espinhos, onde fica o veneno. O ICMBio orienta segurar o peixe com o polegar dentro da boca e, com a outra mão, cortar os espinhos com cuidado.
Para quem vive da pesca, a norma também abre uma porta. Estados e municípios podem criar ações de prevenção, controle e monitoramento, segundo o artigo 10. Empreendimentos licenciados pelo Ibama podem apoiar projetos de controle como medida de mitigação e compensação ambiental. O incentivo à pesca do invasor vale até nos períodos de defeso, quando a captura de espécies nativas protegidas fica suspensa, desde que o peixe-leão seja abatido.
Quem avista ou pesca um peixe-leão deve avisar o centro do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) da sua região, orienta o instituto. O aviso deve trazer o nome do local, a profundidade e, se possível, fotos ou vídeo.
| Região | Centro do ICMBio | Telefone | |
|---|---|---|---|
| Norte | Cepnor | (91) 3274-1237 | [email protected] |
| Nordeste | Cepene | (81) 3676-1166 | [email protected] |
| Fernando de Noronha | ICMBio Noronha | (81) 3619-1156 | — |
| Leste | Tamar | (27) 3222-1417 | [email protected] |
| Sul | Cepsul | (47) 3348-6058 | [email protected] |
Fonte: ICMBio, material de divulgação sobre o peixe-leão de 2022, mantido no site do instituto em 2026.
Se o peixe vier no anzol ou na rede, o caminho é outro. O pescador não pode devolvê-lo ao mar, pela norma do Ibama, e o ICMBio pede que ele seja levado para terra e entregue ao instituto. O passo a passo:
- Não devolva o peixe-leão à água, mesmo que ele esteja vivo.
- Segure o peixe com o polegar dentro da boca, longe dos espinhos.
- Com a outra mão, corte os espinhos com cuidado.
- Abata o peixe antes de desembarcar, como manda o artigo 7º da norma do Ibama.
- Anote o local e a profundidade e leve o peixe ao centro do ICMBio da região ou a uma instituição de pesquisa parceira.
O registro serve para mapear o avanço da espécie. A Instrução Normativa Ibama 10/2026 prevê que o Ibama crie um sistema próprio para receber essas ocorrências. O instituto também deve publicar em seu site a lista de instituições parceiras que recebem os peixes para estudo. Até lá, os avisos seguem pelos centros do ICMBio.
O peixe-leão não é o único animal marinho que pede atenção do banhista no Nordeste. Em Pernambuco, um comitê estadual reúne desde 1992 os registros de incidentes com tubarão no litoral, com regras próprias para banho e surfe.
- 10 de maio de 2014Mergulhadores veem o primeiro peixe-leão do litoral brasileiro em Arraial do Cabo (RJ)
- 22 de abril de 2015Estudo liderado pela UFF liga o peixe à população invasora do Caribe
- 2020Quatro peixes-leão são registrados em recifes da costa amazônica e em Fernando de Noronha
- Março a maio de 2022Pesquisadores contam 72 avistamentos em 240 km do litoral do Nordeste
- 30 de abril de 2023ICMBio registra a primeira captura de peixe-leão no Atol das Rocas, um exemplar de 23 cm
- 27 de fevereiro de 2025Exemplar de 49 cm é capturado no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
- 1º de abril de 2026Ibama publica a norma que dispensa autorização para pescar e abater o peixe-leão
- Agosto de 2026ICMBio confirma o peixe-leão na região de Abrolhos, e a colônia de Porto Seguro recebe 442 exemplares
A Instrução Normativa Ibama 10/2026 deve ter a revisão avaliada depois de três anos de vigência, segundo o artigo 14. Até lá, avistamentos no litoral do Nordeste podem ser informados ao Cepene, centro do ICMBio para a região, pelo telefone (81) 3676-1166.
Como citar: Ouviram (30 out. 2026). «Peixe-leão se espalhou da costa amazônica ao sul da Bahia em seis anos». ouviram.com.br/brasil/peixe-leao-no-brasil-e-venenoso-pode-pescar-comer-o-que-fazer
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
Pode ter peixe-leão em aquário em casa?
Não. A Instrução Normativa Ibama 10/2026 proíbe manter, criar, reproduzir, transportar e vender peixe-leão vivo. Só instituições de pesquisa e de visitação pública licenciadas, como zoológicos e aquários, podem mantê-lo vivo.
Tem peixe-leão no Sul do Brasil?
Os estudos científicos e os registros do Ibama citados nesta reportagem não apontam peixe-leão no litoral do Sul até outubro de 2026. O ICMBio pede que qualquer avistamento na região seja informado ao Cepsul pelo (47) 3348-6058.
Precisa de licença para pescar peixe-leão?
A norma do Ibama dispensa autorização específica para o controle da espécie, mas o artigo 9º manda o pescador seguir as regras do ordenamento pesqueiro da sua modalidade, profissional, amadora ou esportiva, e dos petrechos que usa.
O peixe-leão do Brasil é o mesmo do Caribe?
Sim. Estudo genético publicado em 2023 por pesquisadores brasileiros concluiu que os peixes-leão capturados em 2022 na costa amazônica, no Nordeste e em Fernando de Noronha são da espécie Pterois volitans e têm a mesma assinatura genética da população do Caribe.
Onde entregar um peixe-leão pescado?
A Instrução Normativa Ibama 10/2026 deixa a destinação a critério de quem capturou, com registro obrigatório no sistema do Ibama pela instituição que recebe. O ICMBio orienta entregar o peixe ao centro do instituto na sua região.
Informar um erro nesta matéria · Correções publicadas
Enquete do leitor
Você já viu um peixe-leão no mar?
Enquete aberta, sem valor estatístico. Todas as enquetes
Mais sobre o assunto
Últimas de Brasil
- Homicídio no trânsito: júri do caso Porsche em SP mostra quando a pena chega a 30 anos
- Planta, galho ou cisco no olho: SUS tira quase 200 corpos estranhos da córnea por dia
- Acidentes na Via Dutra: atropelamentos são 4 em cada 10 mortes, e Guarulhos lidera
- Tubarão-branco vive na costa do Brasil, e em Pernambuco o risco se concentra no Grande Recife
- Doença de Zé Felipe, síndrome do piriforme causa dor na nádega e tem tratamento pelo SUS
1. Quantos espinhos venenosos tem o peixe-leão?
São 18 espinhos com veneno, segundo o material de orientação do ICMBio. Pela contagem da NOAA, agência dos Estados Unidos, 13 ficam na nadadeira dorsal e 3 na anal.
2. Onde foi visto o primeiro peixe-leão do litoral brasileiro?
Mergulhadores o viram em 10 de maio de 2014 nos costões de Arraial do Cabo (RJ), segundo estudo liderado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e publicado em 2015.
3. O que fazer com um peixe-leão pescado por acidente?
O artigo 7º da Instrução Normativa Ibama 10/2026 proíbe devolver o peixe vivo ao mar e obriga o abate antes do desembarque.
O que você achou desta matéria?
O Ouviram confere cada dado em fontes oficiais e separa informação de opinião. Como trabalhamos · Achou um erro? Avise a redação





Comente com respeito. Leia as regras de participação: sem ofensas, sem dados pessoais de terceiros, sem links.