Meio ambienteExplicador
Mexilhão-dourado entope turbinas e pode custar R$ 40 mil por dia a uma hidrelétrica
A espécie asiática chegou ao Brasil em 1998, e o Ibama tenta impedir que ela alcance as bacias Amazônica e do Tocantins-Araguaia.

O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), molusco de água doce originário da China, chegou ao Brasil em 1998, segundo o Ibama. Hoje ocupa quase todo o Sul e partes do Sudeste e do Centro-Oeste. Ele gruda em superfícies duras e forma colônias densas.
O problema é econômico e ambiental. As colônias entopem turbinas de hidrelétricas, bombas de captação e tubulações de estações de tratamento de água. Uma usina de 120 megawatts (MW) afetada pode ter custo de R$ 40 mil por dia só com máquinas paradas, segundo o plano nacional do Ibama para a espécie, publicado em 2020.
O plano foi aprovado pela Portaria Ibama 3.639, de 10 de dezembro de 2018, e define uma meta de longo prazo. Em 25 anos, o país quer manter sem a espécie as regiões hidrográficas Amazônica e do Tocantins-Araguaia, e conter as populações onde ela já se instalou.
- Nome científicoLimnoperna fortunei
- OrigemRios da China
- Chegada à América do Sul1991, no estuário do Rio da Prata, na Argentina
- Primeiro registro no Brasil1998 e 1999, no Rio Grande do Sul
- Tamanho da conchaDe 2,5 a 6 centímetros
- Tempo de vidaDe 2 a 3 anos
- Plano nacionalPortaria Ibama 3.639/2018
7 dias
é o tempo que o mexilhão-dourado sobrevive fora da água, o bastante para viajar preso a barcos e motores levados por estrada
Fonte: Embrapa
O que é o mexilhão-dourado e como ele chegou ao Brasil
O mexilhão-dourado é um bivalve de água doce, com duas conchas de contorno triangular que medem de 2,5 a 6 centímetros, segundo o plano nacional do Ibama. A espécie vem de rios da China e chegou à América do Sul em 1991, pelo estuário do Rio da Prata, na Argentina.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) aponta a água de lastro de navios como a via de entrada. Cargueiros enchem tanques com água num porto para ganhar estabilidade e esvaziam esses tanques no destino. Com a água, viajam organismos vivos de um continente a outro.
O primeiro registro foi no Balneário Bagliardi, na margem argentina do Rio da Prata. Dali, a espécie se espalhou pela margem uruguaia e subiu os rios da bacia. O plano do Ibama cita registros em Assunção, no Paraguai, em 1997, e em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1998.
No mesmo período, entre 1998 e 1999, o molusco apareceu no Rio Grande do Sul. Os registros foram no Lago Guaíba, em Porto Alegre, na Lagoa Mirim e no Delta do Jacuí. Na Bacia do Prata, a espécie avançou 240 quilômetros por ano rio acima, segundo estudo citado pelo Ibama.
O avanço, diz o plano, ocorre sobretudo pelo transporte de indivíduos presos aos cascos de embarcações. Os barcos levam o molusco pela água e também por estrada, em carretas, de uma represa para outra. Por isso a espécie salta trechos de rio e aparece longe dos focos conhecidos.
- 1991Primeiro registro no estuário do Rio da Prata, na Argentina
- 1997Registro no rio Paraguai, em Assunção
- 1998Registro em Corumbá (MS) e primeiros achados no Rio Grande do Sul
- 2001Chegada à Usina Hidrelétrica de Itaipu, no rio Paraná
- 2001 a 2005Maior dispersão no Alto Rio Paraná e no rio Tietê
- 2011 e 2012Registros no reservatório de Furnas (MG) e na UHE Barra Grande, no rio Pelotas
- 2016Publicação de registro no rio São Francisco, na Bahia e em Pernambuco
Em Itaipu, a população cresceu rápido. Um ano depois da detecção na usina, em 2001, a barragem já tinha 8.000 indivíduos por metro quadrado, segundo o plano. Entre 2001 e 2005 ocorreu a maior dispersão no Alto Rio Paraná, com registros em vários reservatórios desse rio e do Tietê.
Quem visita o Pantanal pelo lado de Corumbá passa por uma das primeiras áreas brasileiras com registro da espécie. Em 2011 e 2012, o molusco chegou ao reservatório de Furnas, no rio Grande, em Minas Gerais, e à UHE Barra Grande, no rio Pelotas, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
O registro mais distante da Bacia do Prata está no rio São Francisco, em trechos da Bahia e de Pernambuco, publicado em 2016. No plano de 2020, o Ibama registra a espécie ausente das bacias ligadas à costa do Pacífico e ao Atlântico Norte do continente.
O ciclo de vida explica a rapidez. O mexilhão-dourado se reproduz de forma quase contínua ao longo do ano e solta larvas microscópicas, de 0,08 a 0,3 milímetro, que flutuam na água. As larvas se fixam depois em pedras, cascos, canos e telas, onde viram adultos.
Fonte: Ibama, Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Mexilhão-dourado (2020)
O crescimento depende da temperatura da água. No Alto Rio Paraná, onde a água passa de 20 ºC, o molusco pode superar 35 milímetros no primeiro ano. No Baixo Rio Paraná, com água entre 10 ºC e 28 ºC, cresce até 20 milímetros no mesmo período. A vida dura de 2 a 3 anos.
A espécie também resiste a condições que limitam outros moluscos. O plano cita tolerância a uma ampla faixa de pH, à água pobre em cálcio e à falta de água por alguns dias. Há ainda registro de sobrevivência à passagem pelo intestino de algumas espécies de peixes.
Por que o mexilhão-dourado preocupa usinas, água e pesca
O mexilhão-dourado preocupa porque gruda em qualquer superfície dura dentro da água e forma camadas que entopem turbinas, grades, bombas e canos, segundo o Ibama. Em hidrelétricas, a limpeza exige parar máquinas. Em estações de tratamento, o molusco reduz a entrada de água e chega aos tanques.
O custo para o setor elétrico aparece no plano nacional. Uma hidrelétrica de 120 MW com três unidades geradoras pode gastar R$ 40 mil por dia com a parada de máquinas. A conta não inclui a manutenção dos equipamentos nem a remoção das incrustações, segundo estudo citado pelo Ibama.
“A invasão é um processo dinâmico e contínuo.”
Na captação de água, o problema é o entupimento de válvulas, bombas e grades, que diminui o fluxo de entrada. O molusco também prejudica a distribuição até as estações de tratamento, ao fechar parte das tubulações. O plano mostra tanques colonizados numa estação de tratamento no Rio Grande do Sul.
A piscicultura em tanques-rede é outro alvo. O plano registra incrustação do mexilhão-dourado nas telas e nos flutuadores de tanques-rede de criação de peixes no Vale do Paranapanema, em São Paulo. As conchas se acumulam também nas margens dos reservatórios, perto das áreas de cultivo.
Na pesca, o molusco se prende a redes, motores e cascos, e os apetrechos viram meio de transporte da espécie. Para quem vive da atividade e depende do seguro-defeso no período de reprodução dos peixes, o Ibama mantém orientações específicas para a limpeza do material.
O efeito sobre a natureza vai além das máquinas. Nas margens do Lago Guaíba, em Porto Alegre, o molusco forma colchões contínuos sobre a areia e sobre raízes de plantas aquáticas, segundo o plano.
O Ibama lista outros danos na página oficial sobre a espécie. O molusco destrói a vegetação aquática e disputa espaço e alimento com moluscos nativos, o que reduz a comida dos peixes e prejudica a pesca. Também danifica boias, trapiches, motores e estruturas de embarcações.
O instituto classifica as espécies exóticas invasoras como “poluição biológica”. Segundo o Ibama, as invasões biológicas são a segunda maior causa de extinção de espécies, atrás apenas da destruição de habitats.
Peixes nativos comem o mexilhão-dourado, mas o plano trata a invasão como um processo contínuo. Em Buenos Aires, a maioria dos 157 exemplares de piapara (Leporinus obtusidens) analisados tinha fragmentos de conchas no aparelho digestivo. Larvas de 18 espécies de peixes também se alimentam das larvas do molusco.
8.000
indivíduos por metro quadrado na barragem de Itaipu, um ano depois da chegada da espécie à usina, em 2001
Fonte: Ibama
A prioridade do governo federal é proteger as bacias ainda livres. A visão de 25 anos do plano prevê manter sem o molusco as regiões hidrográficas Amazônica e do Tocantins-Araguaia. Nas bacias já invadidas, o objetivo é conter e controlar as populações para limitar os prejuízos.
O mexilhão-dourado entrou na lista de espécies prioritárias do governo federal ao lado do javali (Sus scrofa) e do coral-sol (Tubastraea spp.). O Plano Javali foi publicado pela Portaria Interministerial nº 232, de 23 de junho de 2017. O plano do mexilhão saiu em seguida, aprovado pelo Ibama em dezembro de 2018.
A resposta oficial começou bem antes. Em 22 de dezembro de 2003, a Portaria nº 494 do Ministério do Meio Ambiente criou, em caráter emergencial, a Força-Tarefa Nacional para o Controle do Mexilhão-dourado. O grupo produziu um plano de ação emergencial, e o plano nacional veio 15 anos depois.
Como evitar que o mexilhão-dourado se espalhe
A principal forma de conter o mexilhão-dourado é limpar barcos, motores, redes e recipientes antes de levá-los de um rio ou represa para outro, segundo o Ibama e a Embrapa. O molusco aguenta até sete dias fora da água e viaja preso a cascos transportados em carretas.
Para quem usa embarcações, o Ibama recomenda três cuidados. O primeiro é inspecionar o barco com frequência e raspar as incrustações, enterrando o material longe da água. O segundo é retirar a água acumulada e descartá-la em terra firme. O terceiro é lavar a embarcação com solução de água sanitária antes de usá-la em outras águas.
Pescadores devem seguir os mesmos cuidados dos navegantes e acrescentar dois. A água das iscas vivas deve ser descartada em terra, longe de rios, lagos e esgotos. Os petrechos de pesca precisam ser limpos com solução de água sanitária antes do uso em outro local, segundo o instituto.
A Embrapa acrescenta uma regra para quem pesca em áreas com o molusco. Nenhum tipo de material vindo do rio Paraguai, ou de outro lugar onde o mexilhão-dourado está presente, deve ser levado para rios e córregos onde a espécie não ocorre.
Agricultores também entram na lista do Ibama. A água de irrigação ou de piscicultura deve ser descartada no solo ou no mesmo corpo d’água de onde foi captada, de preferência acima do ponto de captação. Nunca em outro rio, lago, açude ou rede de esgoto. As incrustações devem ser enterradas longe da água.
O plano nacional recomenda ainda inspecionar os tanques-rede de piscicultura quando forem levados por terra de uma bacia para outra. É o mesmo raciocínio aplicado aos barcos: o equipamento que esteve numa represa invadida pode carregar adultos presos às telas e larvas na água acumulada.
Nas usinas e estações de tratamento, o controle é feito dentro das instalações. O plano cita o gás de cloro, o hipoclorito de sódio líquido e outros produtos à base de cloro como amplamente usados no tratamento de água na América do Sul.
25 anos
é o horizonte do plano nacional para manter as regiões Amazônica e do Tocantins-Araguaia sem o mexilhão-dourado
Fonte: Ibama
O plano aprovado pela Portaria Ibama 3.639/2018 tem um objetivo geral de cinco anos: prevenir a dispersão para áreas não invadidas e conter e controlar as populações nas áreas invadidas. A visão de longo prazo mira as bacias ainda livres e as invadidas com populações sob controle.
Quem encontrar o molusco num rio, lago ou represa onde ele ainda não foi registrado pode avisar o Ibama. O contato indicado na página do instituto sobre a espécie é a Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas, que coordena o plano nacional.
Como citar: Ouviram (22 out. 2026). «Mexilhão-dourado entope turbinas e pode custar R$ 40 mil por dia a uma hidrelétrica». ouviram.com.br/brasil/mexilhao-dourado-o-que-e-por-que-preocupa
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
Onde o mexilhão-dourado já está no Brasil?
Segundo o Ibama, a espécie ocupa quase todo o Sul e partes do Sudeste e do Centro-Oeste, nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai. Também há registro no rio São Francisco, na Bahia e em Pernambuco.
O mexilhão-dourado tem predador natural no Brasil?
O Ibama afirma que a espécie praticamente não tem predadores na fauna brasileira. Isso, somado à grande capacidade de reprodução, explica a rapidez com que ela se espalha.
Dá para eliminar o mexilhão-dourado de um rio?
Com os recursos e os conhecimentos atuais, colônias já instaladas não podem ser erradicadas, segundo o Ibama. Por isso o esforço se concentra em evitar que a espécie chegue a novos locais.
Onde a larva do mexilhão-dourado pode ficar escondida no barco?
Na água do sistema de refrigeração do motor e nos baldes de iscas vivas, segundo o Ibama. A larva é invisível a olho nu e pode levar a espécie a um lugar ainda livre dela.
Quem coordena o combate ao mexilhão-dourado no país?
A Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Ibama coordena o plano nacional, aprovado pela Portaria Ibama 3.639, de 10 de dezembro de 2018. Antes, em 2003, o Ministério do Meio Ambiente criou uma força-tarefa nacional para a espécie.
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1. Em que período o mexilhão-dourado foi registrado pela primeira vez no Brasil?
O plano do Ibama cita os primeiros registros em 1998 e 1999, no Lago Guaíba, na Lagoa Mirim e no Delta do Jacuí, no Rio Grande do Sul.
2. Quanto tempo o mexilhão-dourado sobrevive fora da água?
Segundo a Embrapa, o molusco resiste até sete dias fora da água, tempo suficiente para viajar preso a barcos levados por estrada.
3. Quais regiões hidrográficas o plano do Ibama quer manter livres da espécie?
A visão de 25 anos do plano dá prioridade às regiões Amazônica e Tocantins-Araguaia, ainda não invadidas.
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