GoiâniaExplicador
Césio-137 em Goiânia: o que houve em 1987, onde está o lixo radioativo e quem recebe pensão
Os 3.500 metros cúbicos de rejeitos estão enterrados em Abadia de Goiás, sob controle da CNEN, e a saúde estadual monitorava 1.075 pessoas em 2023.

O acidente com césio-137 de setembro de 1987, em Goiânia, matou quatro pessoas e contaminou 249, segundo a Secretaria da Saúde de Goiás. Hoje, os rejeitos estão enterrados em Abadia de Goiás, e as vítimas reconhecidas têm atendimento médico e pensão vitalícia.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) classifica o acidente no nível 5 da Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos (INES), que vai de 1 a 7. É a mesma faixa do acidente da usina de Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979.
Para quem mora em Goiânia, a vigilância continua. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) mantém em Abadia de Goiás um centro que controla o depósito e faz o controle radiológico das áreas descontaminadas da capital.
- Início13 de setembro de 1987, com a retirada da fonte de um prédio abandonado
- Descoberta29 de setembro de 1987, quando o material foi identificado como radioativo
- OndeGoiânia (GO), a partir do antigo Instituto Goiano de Radioterapia
- MaterialCloreto de césio-137, com atividade de 50,9 TBq (1.375 curies)
- Mortes4, entre quatro e cinco semanas após a exposição
- Monitorados112.800 pessoas
- Contaminados249 pessoas
- Rejeitos3.500 m³, enterrados em Abadia de Goiás
112.800
pessoas passaram por monitoramento de radiação em Goiânia depois que o acidente foi descoberto
Fonte: Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, 2024
Como começou o acidente
O acidente com césio-137 começou em Goiânia em 13 de setembro de 1987, segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás. Naquele dia, a fonte de um aparelho de radioterapia foi retirada do prédio abandonado do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. O material só foi reconhecido como radioativo 16 dias depois, em 29 de setembro.
A clínica, que era particular, tinha mudado de endereço no fim de 1985, segundo relatório da AIEA publicado em 1988. Levou um aparelho de cobalto-60 e deixou para trás o de césio-137, sem avisar o órgão responsável pela licença. Parte do prédio foi depois demolida, e o equipamento ficou desprotegido.
Duas pessoas entraram no local e retiraram a peça, sem saber o que era, achando que valia como sucata. Os restos foram vendidos a um ferro-velho, e a cápsula foi aberta em 21 de setembro. Ali, o dono notou que o pó brilhava em azul no escuro, e amigos e parentes passaram dias indo ver o fenômeno, descreve a AIEA.
O pó era cloreto de césio, um sal que se espalha com facilidade e gruda na pele, nas mãos e nos móveis. Segundo a AIEA, algumas vítimas chegaram a passar o pó no corpo e comeram com as mãos contaminadas. Fragmentos foram levados para várias casas.
Várias pessoas adoeceram e procuraram atendimento. Em 28 de setembro, um médico de Goiânia reconheceu sinais de exposição excessiva à radiação, segundo a AIEA. Um físico consultado no dia seguinte mediu níveis altos e avisou a saúde estadual, que acionou a CNEN.
Físicos e médicos do Rio de Janeiro e de São Paulo foram enviados a Goiânia. Um estádio virou área provisória para examinar quem podia estar contaminado, e a triagem apontou 20 pessoas que precisavam de hospital, segundo o relatório.
- 13 de setembro de 1987Fonte de radioterapia é retirada do prédio abandonado de uma clínica em Goiânia
- 29 de setembro de 1987Material é identificado como radioativo, e a CNEN é acionada
- Outubro de 1987Quatro pacientes morrem, entre quatro e cinco semanas após a exposição
- Dezembro de 1987Restrições nas principais áreas contaminadas da capital são suspensas, segundo a AIEA
- Fevereiro de 1988Governo de Goiás cria a Fundação Leide das Neves Ferreira para acompanhar as vítimas
- 24 de dezembro de 1996Lei federal 9.425 cria a pensão especial vitalícia para as vítimas
- 1997Centro regional da CNEN que controla o depósito de Abadia de Goiás é inaugurado com o nome atual
- 30 de março de 2026Lei estadual 24.188 reajusta as pensões estaduais em 69,92%
O saldo foi de 4 mortos, 249 pessoas com contaminação significativa e 112.800 monitoradas, segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás. Das 249, 120 tinham radiação só nas roupas e nos calçados. As outras 129 receberam acompanhamento médico, em ambulatório, em albergues ou no hospital.
Entre essas 129 pessoas, 79 tinham contaminação externa e foram tratadas em ambulatório. Outras 50 tinham césio dentro do corpo: 30 ficaram em albergues, em semi-isolamento, e 20 foram internadas no Hospital Geral de Goiânia. Os 14 casos mais graves seguiram para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro.
As quatro mortes ocorreram entre quatro e cinco semanas depois da exposição, duas por hemorragia e duas por infecção generalizada, segundo a secretaria. A AIEA registra que as doses estimadas desses pacientes iam de 4,5 a mais de 6 grays, a unidade que mede a radiação absorvida pelo corpo. Dois pacientes com doses parecidas sobreviveram.
Fonte: Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, 2024
O dano também alcançou casas e ruas: segundo a AIEA, 85 casas tinham contaminação significativa, e 200 moradores foram retirados de 41 delas. Trinta casas foram liberadas depois de duas semanas, e sete acabaram demolidas. Foram identificados sete focos principais, em torno dos ferros-velhos envolvidos.
Mais de 700 trabalhadores participaram da resposta, entre técnicos da CNEN, militares do Exército e equipes de Furnas e da Nuclebrás, segundo a AIEA. Um helicóptero com detectores percorreu mais de 67 km² da área urbana em dois dias e encontrou só um foco que ainda não era conhecido.
Onde está o lixo radioativo
O lixo radioativo do césio-137 está no depósito definitivo de Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás. São 3.500 metros cúbicos de rejeitos, guardados em contêineres concretados e enterrados dentro do Parque Estadual Telma Ortegal, à beira da BR-060.
Os rejeitos reúnem o material recolhido na descontaminação de casas, ruas e ferros-velhos. A remoção para a área escolhida pelo governo estadual começou no fim de outubro de 1987, segundo a AIEA. Em meados de dezembro, as restrições nas principais áreas contaminadas da capital já tinham sido suspensas.
O depósito fica sob responsabilidade do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), unidade da CNEN inaugurada com esse nome em 1997. A missão descrita pela comissão é “exercer o controle institucional do Depósito Final de rejeitos radioativos”. O mesmo centro faz o controle radiológico ambiental das áreas de Goiânia que foram descontaminadas, chamadas de áreas remediadas.
O cuidado tem prazo longo porque o césio-137 tem meia-vida de cerca de 30 anos, segundo a AIEA. Isso quer dizer que, a cada três décadas, a atividade do material cai pela metade. Em 2017, 30 anos depois do acidente, restava cerca de metade do césio original nos rejeitos; em 2047, restará cerca de um quarto.
O parque foi criado pela Lei estadual 12.789, de 26 de dezembro de 1995, e tem 165,96 hectares, segundo o governo de Goiás. O plano de manejo, que define o uso da área, foi aprovado em julho de 2025. Uma torre de observação, em frente aos campos onde o material foi enterrado, permite ver o local de cima.
Pensões e atendimento às vítimas
A pensão estadual das vítimas mais expostas ao césio-137 é de R$ 3.242 por mês, segundo a Lei estadual 24.188, de 30 de março de 2026. Ela vale para quem teve contato direto com o material ou recebeu mais de 100 rads; os demais beneficiários recebem R$ 1.621. O rad é uma unidade antiga: 100 rads equivalem a 1 gray.
Os valores não mudavam desde a Lei estadual 20.181, de julho de 2018. O reajuste de 69,92% foi proposto pelo Executivo estadual e aprovado pela Assembleia Legislativa de Goiás em março de 2026.
| Categoria da pensão estadual | De 2018 a março de 2026 | Desde março de 2026 |
|---|---|---|
| Contato direto com o césio ou mais de 100 rads | R$ 1.908,00 | R$ 3.242,00 |
| Demais beneficiários | R$ 954,00 | R$ 1.621,00 |
| Trabalhadores da descontaminação e do atendimento (até 120 vagas) | R$ 954,00 | R$ 1.621,00 |
Fonte: Leis estaduais 14.226/2002, 20.181/2018 e 24.188/2026, Casa Civil de Goiás
A pensão para trabalhadores vale para servidores que se expuseram na limpeza da área, na vigilância do antigo depósito provisório de Abadia e no atendimento de saúde às vítimas. A lei cita a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) e o extinto Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa).
A pensão federal foi criada pela Lei 9.425, de 24 de dezembro de 1996. Os valores foram fixados em Ufir, antiga unidade fiscal, e são reajustados nas mesmas datas e pelos mesmos índices dos servidores federais. A lei prevê cinco faixas:
- 300 UfirVítimas com incapacidade permanente, parcial ou total, para o trabalho
- 200 UfirPessoas expostas a 100 rads ou mais
- 150 UfirPessoas expostas a doses entre 50 e 100 rads
- 150 UfirFilhos de pessoas expostas que nasceram com anomalia ligada à exposição dos pais
- 150 UfirDemais irradiados ou contaminados acompanhados pela Fundação Leide das Neves nos grupos I e II
Em 2023, 653 pessoas recebiam a pensão estadual e 335 a federal, e 205 acumulavam as duas, segundo o boletim do Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados. A concessão depende de perícia: a Junta Médica Oficial avalia os pedidos pela lei federal, e uma comissão multidisciplinar avalia os pedidos pela lei estadual.
O atendimento de saúde fica com o Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA), da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás. O centro acompanhava 1.075 pessoas em 2023, segundo boletim próprio. O número inclui contaminados, irradiados, trabalhadores da descontaminação, vizinhos dos focos e filhos, netos e bisnetos dessas pessoas.
O centro divide os atendidos em três grupos. Os grupos I e II reúnem quem foi contaminado ou irradiado, conforme a dose. O grupo III reúne pessoas sem contaminação comprovada por medição, como quem trabalhou na assistência às vítimas e na limpeza da cidade, os vizinhos dos focos e os parentes.
| Grupo acompanhado pelo CARA | 2022 | 2023 |
|---|---|---|
| Grupo I e descendentes | 100 | 106 |
| Grupo II e descendentes | 97 | 99 |
| Grupo III e descendentes | 793 | 870 |
| Total | 990 | 1.075 |
Fonte: boletim 2022/2023 do CARA, Secretaria de Estado da Saúde de Goiás
O total cresce porque novas pessoas entram no grupo III ao receber pensão estadual ou federal. Os descendentes nascidos depois de 13 de setembro de 1987 também são acompanhados.
A equipe tem médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e dentistas, faz visitas em casa e oferece transporte aos pacientes dos grupos I e II quando necessário, segundo o boletim.
Os atendidos também têm cobertura integral do Ipasgo, o plano de saúde dos servidores de Goiás, para consultas, exames e internações. Os atendimentos por esse plano cresceram 42% em 2023, o que o centro atribui à maior conscientização dos pacientes sobre a necessidade de cuidar da saúde.
O boletim registra 182 mortes entre os cadastrados em 36 anos, até setembro de 2023, incluindo as quatro de 1987.
Além das lesões de pele causadas pela radiação, os problemas crônicos monitorados hoje nessa população são hipertensão, doenças do coração, diabetes e câncer, segundo o centro. Essas doenças têm várias causas e estão ligadas à idade. Elas aparecem de forma parecida à da população em geral, “sem relação aparente com o evento do Césio 137”, diz o boletim.
O tema também chega à sala de aula: radioatividade e meia-vida são conteúdos de química e física do ensino médio. Eles entram na prova de ciências da natureza do Enem 2026, marcada pelo Inep para 15 de novembro. Escolas podem agendar palestras no parque de Abadia às terças e quintas-feiras, segundo o governo de Goiás.
A energia nuclear, por sua vez, segue presente na matriz elétrica brasileira, com as usinas de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A capital goiana, hoje, atrai visitantes pelas feiras, pelos parques e pelos prédios art déco, reunidos no guia o que fazer em Goiânia.
O Parque Estadual Telma Ortegal recebe visitantes de segunda a sexta-feira, das 6h às 18h, na BR-060, km 174,5, em Abadia de Goiás. As visitas guiadas à área do depósito e as palestras são agendadas pelo Centro de Informações do CRCN-CO, pelo telefone (62) 3503-6143 ou pelo WhatsApp (62) 99373-2976.
O atendimento aos radioacidentados funciona no CARA, na Rua 16A, nº 792, Setor Aeroporto, em Goiânia, telefone (62) 3201-4220.
Como citar: Ouviram (30 out. 2026). «Césio-137 em Goiânia: o que houve em 1987, onde está o lixo radioativo e quem recebe pensão». ouviram.com.br/brasil/cesio-137-goiania-o-que-aconteceu-onde-esta-o-lixo-pensao-vitimas
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
O que é meia-vida do césio-137?
Meia-vida é o tempo para metade dos átomos radioativos de uma amostra se transformar. No césio-137, esse tempo é de cerca de 30 anos, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Depois de 60 anos, resta um quarto da atividade inicial.
Qual a diferença entre acidente radiológico e acidente nuclear?
Acidente nuclear envolve reator ou combustível de usina, como o de Chernobyl, em 1986. Acidente radiológico envolve uma fonte radioativa fora de usina, como a cápsula de radioterapia aberta em Goiânia em 1987.
O que é o azul da Prússia usado nas vítimas do césio?
É um medicamento que se liga ao césio no intestino e ajuda o corpo a eliminá-lo. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ele foi dado aos pacientes internados em Goiânia e no Rio de Janeiro em 1987.
A pensão federal das vítimas do césio-137 passa para os herdeiros?
Não. A Lei 9.425/1996 diz que a pensão especial é pessoal e não se transmite ao cônjuge nem aos herdeiros quando o beneficiário morre.
O que fazer ao encontrar um equipamento com o símbolo de radiação?
Não toque, não abra e afaste as pessoas do local. Ligue para a Defesa Civil (199) ou para os Bombeiros (193). No Centro-Oeste, a CNEN mantém plantão de emergências radiológicas 24 horas pelo WhatsApp (62) 99373-1862.
Informar um erro nesta matéria · Correções publicadas
Mais sobre o assunto
Últimas de Brasil
- Morro dos Cavalos e BR-101 em SC: trecho catarinense tem mais acidentes entre as BRs do país
- Brasil tem cerca de 80 meteoritos catalogados desde o Bendegó, achado no sertão da Bahia
- Homicídio no trânsito: júri do caso Porsche em SP mostra quando a pena chega a 30 anos
- Peixe-leão se espalhou da costa amazônica ao sul da Bahia em seis anos
- Planta, galho ou cisco no olho: SUS tira quase 200 corpos estranhos da córnea por dia
1. Em que ano aconteceu o acidente com césio-137 em Goiânia?
A fonte foi retirada do prédio abandonado de um instituto de radioterapia em 13 de setembro de 1987, segundo a Secretaria da Saúde de Goiás.
2. Em que município estão enterrados os rejeitos do césio-137?
Os 3.500 metros cúbicos de rejeitos estão no depósito definitivo de Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, segundo o governo de Goiás.
3. Quantas pessoas foram monitoradas depois do acidente?
A Secretaria da Saúde de Goiás registra 112.800 pessoas monitoradas, das quais 249 tinham contaminação significativa.
O que você achou desta matéria?
O Ouviram confere cada dado em fontes oficiais e separa informação de opinião. Como trabalhamos · Achou um erro? Avise a redação





Comente com respeito. Leia as regras de participação: sem ofensas, sem dados pessoais de terceiros, sem links.