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Corte de gastos no governo Lula: Orçamento de 2027 limita despesa a 2,5% acima da inflação
O projeto enviado ao Congresso prevê superávit de R$ 18,6 bilhões, e 91,7% da despesa primária já tem destino obrigatório, como aposentadorias e salários.

O projeto de Orçamento de 2027, enviado pelo governo ao Congresso, limita a despesa da União a R$ 2,58 trilhões, 7,7% acima de 2026. O texto prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões. Aposentadorias, BPC e salários de servidores ficam fora do bloqueio bimestral, que só alcança despesas discricionárias, como obras, compras e custeio.
Na prática, o freio já está no desenho do projeto. As despesas discricionárias, aquelas que o governo pode escolher executar, caem de R$ 286,5 bilhões autorizados para 2026 para R$ 283,2 bilhões, redução nominal de 1,2%. O gasto primário total recua de 19,3% para 19,1% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as Consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado.
A conta importa porque sobra pouco espaço para escolher. Das despesas primárias previstas para 2027, que excluem os juros da dívida, 91,7% são obrigatórias por lei ou pela Constituição.
91,7%
das despesas primárias previstas para 2027 são obrigatórias, como aposentadorias, salários e benefícios assistenciais
Fonte: Consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado, setembro de 2026
O projeto de lei orçamentária anual (PLN 24/2026) chegou ao Congresso em 31 de agosto de 2026, pela Mensagem Presidencial 731/2026. Ele estima receita total de R$ 7.449,2 bilhões, dos quais R$ 2.185,7 bilhões servem só para rolar a dívida pública. A tabela abaixo mostra as linhas que mais pesam no resultado.
| Linha do Orçamento | 2025 (realizado) | 2026 (reprogramado) | 2027 (projeto) |
|---|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 2.332,6 bi | R$ 2.593,6 bi | R$ 2.848,7 bi |
| Despesas primárias | R$ 2.394,2 bi | R$ 2.645,6 bi | R$ 2.830,1 bi |
| Aposentadorias e pensões do INSS | R$ 1.026,9 bi | R$ 1.133,0 bi | R$ 1.215,1 bi |
| Pessoal e encargos | R$ 402,6 bi | R$ 449,9 bi | R$ 474,1 bi |
| Discricionárias do Executivo | R$ 170,6 bi | R$ 188,5 bi | R$ 222,1 bi |
| Emendas impositivas | R$ 34,3 bi | R$ 37,8 bi | R$ 44,8 bi |
| Resultado primário | −R$ 58,7 bi | −R$ 52,0 bi | R$ 18,6 bi |
| Meta de resultado primário | zero | R$ 34,3 bi | R$ 73,2 bi |
Fonte: Consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado, com dados do PLOA 2027 e do relatório do 3º bimestre de 2026.
A coluna de 2026 mostra o que o governo esperava gastar depois dos bloqueios do ano, por isso as discricionárias parecem subir em 2027. Na comparação com o valor autorizado na lei, que é a referência das consultorias, elas caem.
Quanto o governo pode gastar em 2027
O limite de despesas primárias da União para 2027 é de R$ 2.576,5 bilhões, segundo o projeto de Orçamento enviado ao Congresso em 31 de agosto de 2026. O valor fica R$ 184 bilhões acima da base de 2026, de R$ 2.392,6 bilhões, e já inclui o crescimento máximo acima da inflação permitido pelo arcabouço fiscal.
O arcabouço é a Lei Complementar 200/2023, que substituiu o antigo teto de gastos. A regra corrige o limite do ano anterior pela inflação de 12 meses até junho.
Depois, soma uma parte do crescimento real da receita: 70% dele se a meta fiscal do ano anterior foi cumprida, 50% se não foi. Em qualquer caso, o ganho real fica entre 0,6% e 2,5% ao ano.
Para 2027, a inflação medida pelo IPCA de julho de 2025 a junho de 2026 foi de 4,64%, o que acrescentou cerca de R$ 111 bilhões ao limite. A receita cresceu tanto que 70% da alta real dariam 5,36%, mas a lei trava em 2,5%, mais R$ 62,6 bilhões.
Outros R$ 10,4 bilhões entraram como despesa condicionada, porque a inflação do período ficou abaixo da previsão de 5,1%.
O teto vale para os três Poderes. O Executivo fica com R$ 2.475,5 bilhões, e Judiciário, Legislativo, Ministério Público da União e Defensoria Pública da União somam R$ 101,1 bilhões.
Os gastos com precatórios e requisições de pequeno valor, as dívidas judiciais da União, saíram do limite do Executivo pela Emenda Constitucional 136/2025. Por causa dessas exceções previstas em lei, a despesa primária total do projeto, de R$ 2.830,1 bilhões, fica acima do teto.
Dentro desse teto, a maior parte já tem dono. As aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) somam R$ 1.215,1 bilhões, para uma arrecadação previdenciária de R$ 875,1 bilhões, segundo as consultorias. A diferença, de R$ 340,0 bilhões, sai do caixa geral da União.
O Bolsa Família tem R$ 155,8 bilhões para 19,8 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 655,99 por mês. Na média de 2026 até agosto, o programa atendeu 19,04 milhões de famílias, com R$ 681,49 por família, segundo as consultorias. As datas de pagamento estão no calendário do Bolsa Família de novembro.
Saúde e educação têm pisos na Constituição. O projeto prevê R$ 272,2 bilhões para ações e serviços públicos de saúde, exatamente o mínimo exigido. Para a manutenção do ensino, são R$ 211,9 bilhões, contra um mínimo de R$ 138,8 bilhões. Só R$ 141,2 bilhões, pagos com impostos, contam para esse piso.
Na saúde entram R$ 9,4 bilhões para o piso salarial da enfermagem e R$ 15,6 bilhões para os agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.
| Área | Projeto de 2027 | Mínimo exigido |
|---|---|---|
| Saúde (ações e serviços públicos) | R$ 272,2 bi | R$ 272,2 bi |
| Educação (manutenção do ensino) | R$ 211,9 bi | R$ 138,8 bi |
| Bolsa Família | R$ 155,8 bi | sem piso |
| Investimentos | R$ 87,9 bi | sem piso |
Fonte: Consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado, setembro de 2026.
O que sobra para escolher é pouco. As despesas discricionárias do Executivo, que incluem obras, bolsas de pesquisa, parte dos gastos de saúde e educação e o funcionamento dos ministérios, somam R$ 222,1 bilhões, 1,5% do PIB. As emendas parlamentares obrigatórias levam outros R$ 44,8 bilhões.
Bloqueio e contingenciamento: como o corte de gastos acontece no ano
O corte de gastos durante o ano é decidido a cada dois meses, no Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias dos ministérios do Planejamento e da Fazenda. Se a receita não alcança a meta fiscal, o governo contingencia; se a previsão de gastos passa do limite do arcabouço, ele bloqueia, segundo a Consultoria de Orçamentos do Senado.
Os dois instrumentos têm o mesmo efeito na ponta. O ministério recebe um limite menor do que a verba aprovada pelo Congresso e adia ou cancela compras, obras e contratos. A soma dos dois se chama contenção.
“Na prática, tanto o contingenciamento como o bloqueio de despesas resultam na imposição de limites de empenho inferiores à dotação orçamentária.”
Em 2026, o valor travado mudou a cada relatório. Começou em R$ 1,6 bilhão em março, saltou para R$ 23,7 bilhões em maio e caiu para R$ 17,9 bilhões em julho, sempre em bloqueio. Em setembro, ficou em R$ 16,0 bilhões, agora quase todo em contingenciamento.
Fonte: Consultoria de Orçamentos do Senado, com dados do Decreto 13.130/2026, 1º de outubro de 2026
A virada de setembro veio do relatório do 4º bimestre, publicado em 24 de setembro. A previsão de receita caiu R$ 15,7 bilhões, com Imposto de Renda, Imposto de Importação e Cofins abaixo do esperado. O crescimento do PIB de 2026 foi revisto de 2,27% para 2,02%. As despesas estimadas subiram R$ 22,1 bilhões.
Com isso, o governo apontou o primeiro contingenciamento do ano, de R$ 13,6 bilhões: R$ 2,8 bilhões sobre emendas parlamentares e R$ 10,8 bilhões sobre os ministérios.
Ao mesmo tempo, a previsão de despesas obrigatórias caiu, puxada por R$ 13,6 bilhões a menos em aposentadorias e pensões. Isso permitiu desbloquear R$ 15,5 bilhões, e o bloqueio restante ficou em R$ 2,4 bilhões.
O Decreto 13.130/2026, publicado em 30 de setembro, distribuiu os R$ 16,0 bilhões entre os órgãos. O valor equivale a 6,5% das despesas discricionárias do ano. Em reais, os ministérios mais atingidos foram Defesa, Educação e Saúde. Já o Ministério das Cidades ficou com 71% da redução da contenção em relação a julho, toda em despesas do PAC.
Há um piso para esse aperto. A Lei Complementar 200/2023 fixa que as despesas discricionárias não podem ficar abaixo de 75% do valor autorizado na lei orçamentária, o mínimo para a máquina pública funcionar. Na prática, isso limita o contingenciamento a cerca de um quarto dessa verba.
As despesas obrigatórias também têm um alarme. Se a parcela delas passar de 95% da despesa primária total em um ano, valem no ano seguinte as travas do artigo 167-A da Constituição. Entre elas estão a proibição de reajustes e de novos concursos, salvo exceções.
O próximo relatório bimestral, do 5º bimestre, sai em novembro e pode ampliar ou reduzir a contenção de 2026.
Meta fiscal, salário mínimo e concursos no Orçamento de 2027
A meta fiscal de 2027 é um superávit primário de R$ 73,2 bilhões, 0,5% do PIB, segundo o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027. A tolerância vai de R$ 36,6 bilhões a R$ 109,8 bilhões. Superávit primário é quando a receita supera as despesas, sem contar os juros da dívida.
O projeto de Orçamento chega a esse número com descontos permitidos por lei. Ao superávit de R$ 18,6 bilhões, a conta da meta soma R$ 64,7 bilhões em despesas que ficam de fora.
São R$ 59,2 bilhões de precatórios e requisições de pequeno valor e R$ 5,0 bilhões de projetos estratégicos de defesa. Outros R$ 0,6 bilhão são gastos temporários de saúde pagos com o Fundo Social. O resultado ajustado fica em R$ 83,4 bilhões, R$ 10,1 bilhões acima do centro da meta, segundo a Nota Técnica Conjunta 4/2026 das consultorias.
Os precatórios vão entrar aos poucos na meta. Pela Emenda Constitucional 136/2025, a partir de 2027 essas dívidas judiciais passam a contar de forma gradual e cumulativa, em no mínimo 10% do valor previsto a cada ano. O projeto da LDO fixa 39,4% para 2027: R$ 38,48 bilhões entram na conta da meta, e R$ 59,18 bilhões ficam fora.
O ano de 2025 deixou travas automáticas. O governo central fechou com déficit primário de R$ 58,7 bilhões, 0,46% do PIB, segundo a nota das consultorias. O resultado acionou o artigo 6º-A do arcabouço, incluído pela Lei Complementar 211/2024.
Até que haja superávit anual, fica proibida lei que crie, amplie ou prorrogue benefício tributário. E, até 2030, a despesa com pessoal de cada Poder não pode crescer mais de 0,6% acima da inflação, fora as decisões judiciais.
Para o trabalhador, o número mais visível é o salário mínimo. O projeto prevê R$ 1.741 a partir de janeiro de 2027, alta de 7,4% sobre os R$ 1.621 de hoje.
A conta soma o INPC de 12 meses até novembro, estimado em 4,93%, a um ganho real de 2,3%, igual ao crescimento do PIB de 2025, pela Lei 14.663/2023. Em abril, a LDO projetava R$ 1.717.
Se você recebe aposentadoria de um salário mínimo, o reajuste segue o do piso, com ganho real. Quem ganha acima do mínimo pelo INSS tem correção só pelo INPC de 12 meses até dezembro. Os detalhes estão na matéria sobre o salário mínimo de 2026 e 2027.
Para quem estuda para concurso, o Anexo V do projeto autoriza a criação de 4.704 e o provimento de 50.722 cargos, funções e gratificações. O custo é de R$ 3,8 bilhões em 2027. Os reajustes e mudanças de carreira já previstos somam R$ 11,5 bilhões. Os editais abertos estão reunidos na lista de concursos públicos abertos.
O Orçamento também mostra o peso dos juros. O projeto prevê R$ 1.154,0 bilhões em juros nominais do governo central em 2027, 7,8% do PIB, com a taxa Selic projetada pelo governo em 11,41% em dezembro de 2027. As projeções do mercado para juros e inflação aparecem toda segunda-feira no Boletim Focus.
Nos parâmetros do projeto, o governo usou crescimento do PIB de 2,46% em 2027, IPCA de 3,6% e dólar a R$ 5,28 em dezembro de 2027.
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O projeto ainda pode mudar no Congresso. Ele passa pela Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização, que recebe as emendas de deputados e senadores, e depois vai ao plenário do Congresso Nacional. Pela Constituição, o texto precisa voltar à sanção até o fim da sessão legislativa, em 22 de dezembro.
Antes, o Congresso precisa votar a LDO de 2027, que fixa a meta e as regras de execução. O projeto (PLN 2/2026) chegou em abril, e o governo propôs mudanças em 31 de agosto. A votação na comissão e no plenário ainda não começou, segundo a página do projeto no Congresso Nacional nesta terça-feira (27).
Quem quiser opinar sobre o projeto pode responder à enquete do PLN 24/2026 no portal da Câmara dos Deputados, que pergunta “Qual sua opinião sobre o PLN 24/2026 CN?”.
Como citar: Ouviram (27 out. 2026). «Corte de gastos no governo Lula: Orçamento de 2027 limita despesa a 2,5% acima da inflação». ouviram.com.br/economia/corte-de-gastos-governo-lula-orcamento-2027-limite-meta-fiscal
Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre déficit primário e déficit nominal?
O resultado primário deixa de fora os juros da dívida; o nominal inclui. Para 2027, o projeto de Orçamento prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, mas déficit nominal de R$ 1.135,3 bilhões, 7,7% do PIB, por causa dos juros.
Quanto o Brasil gasta com juros da dívida?
O projeto de Orçamento de 2027 prevê R$ 1.154,0 bilhões em juros nominais do governo central, 7,8% do PIB, segundo as consultorias de orçamento do Congresso. Em 2025, foram R$ 891,9 bilhões.
O que é a regra de ouro do Orçamento?
É a proibição, no artigo 167 da Constituição, de a União fazer empréstimos acima das despesas de capital, como investimentos e pagamento da dívida. Em 2027, o excesso previsto é de R$ 414,1 bilhões, e essas despesas só podem ser pagas se o Congresso aprovar um crédito extra por maioria absoluta.
Quanto cada deputado e senador tem de emendas em 2027?
O projeto reserva cerca de R$ 43,0 milhões em emendas individuais para cada deputado e R$ 79,1 milhões para cada senador, segundo as consultorias. Em 2026, eram R$ 40,2 milhões e R$ 74,0 milhões.
Quem decide o bloqueio de verbas dos ministérios?
O presidente da República assina o decreto de programação orçamentária, com base no relatório bimestral feito pelos ministérios do Planejamento e Orçamento e da Fazenda. O decreto fixa quanto cada ministério pode empenhar e pagar no ano.
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1. Qual é o salário mínimo previsto no projeto de Orçamento de 2027?
O projeto de Orçamento prevê R$ 1.741 a partir de janeiro de 2027. O valor de R$ 1.717 era a projeção da LDO, enviada em abril.
2. Qual o crescimento máximo da despesa federal acima da inflação pelo arcabouço fiscal?
A Lei Complementar 200/2023 permite alta real de 0,6% a 2,5% ao ano. Em 2027, o limite usa o teto de 2,5%.
3. Que parte das despesas discricionárias o governo precisa manter, no mínimo, durante o ano?
A Lei Complementar 200/2023 fixa em 75% do valor autorizado o nível mínimo para o funcionamento da administração.
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