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O que fazer com o 13º: quitar o rotativo de 15,29% ao mês vem antes de investir

Pelas taxas de setembro do Banco Central, R$ 5 mil de fatura do cartão paga só em parte geram R$ 764,50 de juros em um mês, 18 vezes o que rende uma aplicação.

Cédulas de real de R$ 5 a R$ 100 espalhadas, em várias cores
Cédulas de R$ 5, R$ 10, R$ 20, R$ 50 e R$ 100 aparecem espalhadas, em imagem de 2016.Foto: joelfotos / Pixabay · licença Pixabay

O rotativo do cartão cobrou em média 15,29% ao mês em setembro, segundo o Banco Central, enquanto o Tesouro Selic rende 0,83%. Por isso, quem deve no rotativo, no cheque especial ou no crédito pessoal ganha mais quitando a dívida com o 13º do que investindo. Os 0,83% do Tesouro Selic já descontam o imposto.

O dinheiro chega em duas etapas: a primeira parcela do décimo terceiro tem de ser paga até segunda-feira, 30 de novembro, e a segunda, até sexta, 18 de dezembro. O prazo legal da segunda é o dia 20, que cai num domingo. Para quem ganha um salário mínimo, de R$ 1.621, o valor líquido soma R$ 1.499,42, como mostra o cálculo do 13º salário por faixa de renda.

A escolha pesa mais neste fim de ano porque o atraso nas contas está no ponto mais alto já medido. A inadimplência das pessoas físicas no crédito livre chegou a 8,09% em setembro, a maior taxa da série do Banco Central, iniciada em março de 2011.

8,09%

é a fatia do crédito livre das famílias atrasada há mais de 90 dias, recorde da série iniciada em 2011

Fonte: Banco Central, setembro de 2026

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O endividamento também bateu o próprio recorde. As dívidas das famílias com bancos e financeiras equivaliam a 50,11% da renda de 12 meses em agosto, o maior nível da série iniciada em 2005, segundo o Banco Central. Na prática, as famílias devem o equivalente a metade de tudo o que recebem em um ano, somando empréstimos, financiamentos e cartões.

Juros da dívida contra o rendimento da aplicação

A conta que decide o destino do 13º é simples: compare quanto a dívida cobra por mês com quanto a aplicação paga no mesmo mês. Se a dívida custa mais, cada real usado para quitá-la “rende” exatamente a taxa de juros que deixa de ser cobrada, sem risco e sem imposto.

A tabela usa as taxas médias de setembro, as mais recentes do Banco Central. A quantia de R$ 5 mil fica perto do 13º líquido de quem ganha R$ 6 mil por mês.

Onde está o dinheiroTaxa ao mêsJuros ou rendimento em um mês sobre R$ 5 mil
Rotativo do cartão15,29%R$ 764,50
Cartão parcelado9,37%R$ 468,50
Cheque especial7,53%R$ 376,50
Crédito pessoal não consignado6,42%R$ 321,00
Consignado de trabalhadores do setor privado3,75%R$ 187,50
Consignado de aposentados do INSS1,76%R$ 88,00
Tesouro Selic ou CDB de 100% do CDI, sem imposto0,83%R$ 41,54
Poupança0,67%R$ 33,52

Fonte: Banco Central, taxas médias de setembro de 2026, CDI de 13,65% ao ano e poupança com aniversário em 4 de novembro. Tesouro Selic e CDB num mês de 21 dias úteis, com imposto de 22,5%.

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A linha de corte fica perto de 0,9% ao mês, ou 11% ao ano. Qualquer dívida acima disso custa mais do que uma aplicação conservadora rende, mesmo depois de dois anos, quando o imposto cai para 15%. Todas as linhas de crédito pessoal da tabela estão acima.

O consignado do INSS, a mais barata delas, ainda cobra o dobro do que o Tesouro Selic paga. E os juros básicos seguem no mesmo patamar: o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira, 4 de novembro.

“O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário, para manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”, diz o comunicado do Copom. Isso mantém a aplicação rendendo bem, mas também mantém caro o crédito do dia a dia.

O rotativo merece atenção à parte. Ele é cobrado quando você paga só uma parte da fatura e, pelas regras do Conselho Monetário Nacional (CMN), dura no máximo até o vencimento da fatura seguinte. Depois disso, o saldo vira parcelamento.

Desde 2024, a Lei 14.690 limita juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura ao valor original da dívida. Quem devia R$ 5 mil pode chegar a dever, no máximo, R$ 10 mil.

Quanto o 13º economiza ou rende em 12 meses

Em um ano, os juros evitados com a quitação podem passar do valor do próprio 13º. A tabela mostra, para três valores, o rendimento líquido das aplicações e os juros que uma dívida parada, sem nenhum pagamento, acumularia no mesmo período.

Em 12 mesesR$ 2 milR$ 5 milR$ 10 mil
Rendimento no Tesouro Selic ou CDB de 100% do CDI, sem impostoR$ 223,32R$ 558,30R$ 1.116,61
Rendimento na poupançaR$ 164,10R$ 410,24R$ 820,49
Juros no consignado do INSS (23,22% ao ano)R$ 464,40R$ 1.161,00R$ 2.322,00
Juros no crédito pessoal (110,94% ao ano)R$ 2.218,80R$ 5.547,00R$ 11.094,00
Juros no cheque especial (139,02% ao ano)R$ 2.780,40R$ 6.951,00R$ 13.902,00

Fonte: Banco Central (taxas médias de setembro de 2026, CDI de 13,65% ao ano e poupança acumulada de 8,20% nos 12 meses até 5 de novembro de 2026) e Lei 11.033/2004.

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Suponha uma família com R$ 5 mil no cheque especial e R$ 5 mil de 13º na mão. Aplicado, o dinheiro renderia R$ 558,30; usado para quitar a dívida, evita R$ 6.951 de juros. Nenhuma aplicação de renda fixa chega perto desse resultado.

O rotativo do cartão ficou fora da tabela de propósito: pelas regras do CMN, ele não passa da fatura seguinte. A comparação justa é a de um mês, e nela o rotativo cobra 18 vezes o que o Tesouro Selic paga.

Do lado das aplicações, o imposto de renda segue a tabela regressiva da Lei 11.033/2004. Ele leva 22,5% do ganho em até 180 dias, 20% até 360 dias, 17,5% até 720 dias e 15% depois disso. A poupança não paga imposto de pessoa física, pela Lei 8.981/1995. O guia de imposto sobre investimentos traz a alíquota de cada aplicação.

A ordem de prioridade, da dívida mais cara à aplicação

A regra é pagar primeiro o que cobra mais caro e só depois pensar em rendimento. Siga esta sequência com o dinheiro das duas parcelas:

  1. Liste todas as dívidas e as taxas. O Registrato, serviço gratuito do Banco Central, mostra empréstimos, financiamentos e cartões ligados ao seu CPF em todos os bancos. O acesso é com a conta gov.br, e a taxa de cada contrato aparece na fatura ou no contrato, no campo do Custo Efetivo Total (CET).
  2. Quite o rotativo e o cartão parcelado. São as duas linhas mais caras, com 15,29% e 9,37% ao mês. No parcelado, peça ao banco o valor para quitação antecipada: o artigo 52 do Código de Defesa do Consumidor garante a redução proporcional dos juros quando você paga antes, no todo ou em parte.
  3. Pague o cheque especial e o crédito pessoal. No cheque especial, o teto é de 8% ao mês desde 2020, pela Resolução 4.765 do CMN, e a média de 7,53% já encosta nesse limite. No crédito pessoal, a mesma regra do Código de Defesa do Consumidor reduz os juros na quitação antecipada.
  4. Separe a reserva de emergência. Com as dívidas caras zeradas, guarde num lugar de resgate imediato o equivalente a alguns meses das despesas fixas da casa. É ela que evita uma nova entrada no rotativo no primeiro imprevisto de 2027.
  5. Antecipe parcelas do consignado e do financiamento de veículo. Essas linhas cobram menos de 4% ao mês, e a quitação ainda ganha da aplicação. Ela vem depois da reserva porque a dívida barata não justifica ficar sem dinheiro para emergências.
  6. Deixe o financiamento imobiliário para o fim. A taxa média foi de 11,31% ao ano em setembro, segundo o Banco Central. É quase um empate com os 11,17% líquidos do Tesouro Selic em 12 meses. Amortizar reduz o prazo ou a parcela, e o saldo do FGTS também pode ser usado para isso.
  7. Aplique o que sobrar. Sem dívidas caras e com a reserva pronta, o restante do 13º vai para aplicações com prazo e objetivo definidos.

Há também caminhos para baratear a dívida que o 13º não quita inteira. Desde 1º de julho de 2024, por resolução do CMN, o saldo do rotativo e do parcelamento da fatura pode ir para outra instituição que cobre juros menores.

A Lei 14.690 proíbe o banco de origem de cobrar pela transferência. Pelas regras do CMN, ele pode fazer uma contraproposta, com o mesmo prazo da oferta concorrente. A tabela de juros do cartão e do empréstimo ajuda a comparar as ofertas.

Uma forma prática de usar o 13º é trocar a dívida cara por uma barata. Quem deve no rotativo e tem margem livre no consignado pode quitar o cartão com o 13º. O que faltar vai para o consignado, que cobra uma fração dos juros do cartão.

Dívida atrasada há anos: o Desenrola 3.0 muda a conta

Para quem tem uma dívida antiga em atraso, a melhor decisão pode ser esperar alguns meses com o dinheiro aplicado. O Desenrola Brasil 3.0, criado pela Medida Provisória 1.393, de 25 de setembro de 2026, autoriza a União a comprar dívidas de pessoas físicas de bancos e empresas. O desconto mínimo é de 90% sobre o valor de face.

Entram as dívidas com valor original abaixo de R$ 10 mil e atraso de mais de 720 e menos de 1.645 dias, contados até 25 de setembro de 2026. Na prática, são débitos vencidos entre o fim de março de 2022 e o começo de outubro de 2024.

Além de bancos e financeiras, a medida provisória inclui contas que podem ir para cadastro de inadimplentes, como as de concessionárias de serviços públicos, lojas e prestadores de serviço. O primeiro chamamento, porém, ficou restrito às dívidas com bancos e financeiras, segundo o Ministério da Fazenda.

A etapa atual ainda é a dos credores. Em 22 de outubro, o Ministério da Fazenda publicou portaria com as regras de compra. Bancos, securitizadoras e fundos tiveram até 30 de outubro para informar quais carteiras querem vender. “Neste momento, não há convocação às pessoas físicas, às famílias ou aos MEIs para renegociar suas dívidas”, informou o ministério.

Se a sua dívida se encaixa nessas regras, vale deixar o valor correspondente aplicado no Tesouro Selic ou num CDB de liquidez diária e acompanhar o calendário do Desenrola 2026. O desconto depende de o credor oferecer a carteira à União. Enquanto isso, o dinheiro rende, e se a dívida ficar de fora você continua pronto para negociar à vista.

Quem tem várias dívidas e já não consegue pagar as contas básicas tem outro caminho. A Lei do Superendividamento, de 2021, permite juntar as dívidas de consumo num plano único de até cinco anos. O acordo é negociado no Procon, na Defensoria Pública ou na Justiça e preserva o mínimo existencial de R$ 600 por mês.

Nesse caso, o 13º serve como entrada do acordo, e não para quitar uma dívida isolada.

Sem dívida cara: onde deixar o dinheiro

A reserva de emergência pede uma aplicação que devolva o dinheiro no mesmo dia ou no seguinte. O Tesouro Selic tem recompra garantida pelo Tesouro Nacional em todos os dias úteis e não paga taxa de custódia à B3 até R$ 10 mil por CPF.

Um CDB de liquidez diária que pague 100% do CDI rende o mesmo. Ele tem a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por CPF em cada conglomerado financeiro.

Dinheiro com data marcada exige outro cuidado. Boletos de começo de ano, como IPVA, IPTU, matrícula e material escolar, vencem poucas semanas depois da segunda parcela do 13º. As datas mudam de estado para estado e de cidade para cidade. No resgate antes de 30 dias, o Tesouro Selic e o CDB pagam IOF sobre o rendimento, pelo Decreto 6.306/2007.

A tabela do IOF começa em 96% do ganho no primeiro dia e só zera no 30º, e o imposto de renda desse prazo é o da faixa mais alta.

Nesse prazo curto, a vantagem do Tesouro Selic sobre a poupança praticamente desaparece. A poupança, por sua vez, só credita o rendimento no dia do aniversário do depósito: quem saca antes disso perde o ganho do mês inteiro.

Se você tem filho na escola, separe primeiro o valor da matrícula e do material de 2027. A Lei 9.870/1999, alterada em 2013, proíbe a escola particular de exigir material de uso coletivo dos alunos ou da própria instituição. Esses itens podem ser cortados da lista.

Para objetivos com mais de dois anos, como a entrada de um imóvel ou a faculdade dos filhos, o imposto fica na menor alíquota da tabela. Nesses prazos, títulos do Tesouro Direto atrelados à inflação ou prefixados garantem a taxa do dia da compra até o vencimento.


A Selic define o rendimento do Tesouro Selic, do CDB e da maior parte da renda fixa. O Copom volta a decidi-la na quarta-feira, 9 de dezembro, ao fim de dois dias de reunião em Brasília.

Como calculamos. As dívidas usam as taxas médias de setembro de 2026 do Banco Central, sem pagamentos, IOF nem tarifas. As aplicações usam o CDI de 13,65% ao ano por 250 dias úteis a partir de 6 de novembro, com imposto de 17,5%. A poupança repete os 8,20% dos 12 meses até 5 de novembro, para depósitos com aniversário no dia 5.

Como citar: Ouviram (5 nov. 2026). «O que fazer com o 13º: quitar o rotativo de 15,29% ao mês vem antes de investir». ouviram.com.br/economia/o-que-fazer-com-o-13-salario-quitar-dividas-ou-investir

Os dados, tabelas e gráficos próprios do Ouviram podem ser reutilizados sob a licença CC BY 4.0, com crédito ao Ouviram. Textos e fotos não estão incluídos.

Perguntas frequentes

Depois de quitar uma dívida negativada, em quanto tempo o nome sai do cadastro?

A Súmula 548 do Superior Tribunal de Justiça manda o credor pedir a exclusão do registro em até cinco dias úteis depois do pagamento integral. Passado o prazo, guarde o comprovante e reclame no Procon ou no consumidor.gov.br.

O 13º salário pode ser penhorado por dívida?

O artigo 833 do Código de Processo Civil protege salários e remunerações, e o 13º entra nessa proteção. No texto da lei, as exceções são a pensão alimentícia e a parte da renda que passa de 50 salários mínimos por mês.

Vale usar o 13º para pagar o IPVA em cota única?

Compare o desconto com o rendimento: cada 1% de desconto à vista paga mais do que um mês de Tesouro Selic, que rende 0,83% líquido. Se o seu estado dá desconto para a cota única e você não tem dívida cara, pagar à vista sai na frente.

A antecipação do 13º oferecida pelo banco compensa?

A antecipação é um empréstimo com juros e IOF cobrados até a data em que a empresa paga o 13º. Só faz sentido para trocar uma dívida mais cara, e a comparação se faz pelo Custo Efetivo Total (CET) informado no contrato.

Posso sacar o FGTS para quitar o cartão de crédito?

A Lei 8.036/1990 lista as hipóteses de saque, e dívida de cartão ou de empréstimo pessoal fica de fora. Quem aderiu ao saque-aniversário retira todo ano uma parte do saldo, a partir do mês do aniversário, e usa esse dinheiro como quiser.

#13Salário#BancoCentral#TesouroDireto#Desenrola#Juros

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